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Crianças não consentem

Crianças não consentem

Hely Beltrão
Por: Hely Beltrão
10/02/2026 às 14h46 Atualizada em 10/02/2026 às 17h46
Crianças não consentem
Reprodução

Por Emanuele Pilger, mestra em Comunicação pela UFRB

Há notícias que não informam; elas ferem. O caso envolvendo um piloto da Latam Linhas Aéreas, um homem de 60 anos acusado de liderar uma rede de pedofilia e crimes sexuais contra crianças e adolescentes, é uma delas. Os crimes são tão bárbaros que dispensam descrições detalhadas para que se compreenda a gravidade do que está em jogo.

Dados da SaferNet, organização não governamental (ONG) brasileira que promove os direitos humanos na internet, revelam que, entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil no ambiente digital, um aumento de 18,9% em relação a 2024. Hoje, esse tipo de crime representa 64% das denúncias de crimes cibernéticos, com o agravante do uso crescente de inteligência artificial para produzir conteúdos abusivos.

Esse caso expõe uma realidade ainda mais dolorosa: além do principal acusado, havia uma rede de conivência familiar. Uma avó que comercializava as próprias netas; uma mãe que sabia, permitia e participava. Crianças abusadas desde cedo, marcadas por traumas que carregarão por toda a vida.
O que diz a lei diante de tamanha barbárie?

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro ao afirmar que é dever da família, da sociedade e do Estado garantir, com absoluta prioridade, a proteção integral de crianças e adolescentes. Crimes como estupro de vulnerável, exploração sexual e produção ou compartilhamento de material pornográfico infantil são considerados gravíssimos. As penas podem ultrapassar 15 anos de prisão, com agravantes severos quando há participação de familiares ou organização criminosa.

Ainda assim, especialistas apontam falhas no sistema jurídico brasileiro, seja na lentidão dos processos, seja na dificuldade de aplicar punições proporcionais ao dano causado. A lei existe, mas muitas vezes chega tarde demais para quem já teve a infância destruída.

Não há um culpado "maior" que o outro. O que vemos é uma sociedade adoecida, que perdeu valores e banalizou a responsabilidade de gerar e cuidar de uma vida. Criar um filho exige presença, renúncia e compromisso. Filho não é moeda de troca; é base.
Na semana passada, lembrei-me do versículo bíblico que diz que o amor de muitos esfriaria. Poucos dias depois, a realidade confirma essa dura verdade. Quando o amor esfria, os mais indefesos são os primeiros a sofrer.
Que Deus tenha misericórdia dessas crianças. E que esse caso não seja apenas mais uma notícia a causar indignação passageira, mas um chamado urgente à responsabilidade, à aplicação rigorosa da lei e à proteção efetiva da infância.

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