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Faria Lima, crime e a moral seletiva da direita brasileira

Faria Lima, crime e a moral seletiva da direita brasileira

Hely Beltrão
Por: Hely Beltrão
17/12/2025 às 13h51 Atualizada em 17/12/2025 às 16h51
Faria Lima, crime e a moral seletiva da direita brasileira
Receita Federal

A operação Carbono Oculto, iniciada em agosto recente na área da Faria Lima, em São Paulo, revelou mais do que um esquema complexo de delitos financeiros. Mais uma vez, evidenciou a inconsistência do discurso moral de uma parte significativa da direita brasileira no que diz respeito ao combate ao crime.

Considerada a maior operação já realizada no país para combater a infiltração do crime organizado em estruturas econômicas formais, a ação afetou empresários, operadores de mercado e intermediários de alto poder aquisitivo. Mesmo assim, o silêncio ou a tentativa de relativização dos setores conservadores foi bastante expressivo, ou seja, é perceptível que quando o crime usa terno e transita entre bancos e fundos de investimento, a situação muda.

A diferença se torna ainda mais clara ao analisar a postura da oposição no Congresso Nacional, particularmente do Partido Liberal (PL), que mobiliza esforços - políticos e judiciais - contínuos para proteger a qualquer custo o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. A perseguição política é frequentemente alegada em relação a investigações, denúncias e decisões judiciais, ao passo que crimes de colarinho branco são abordados com explicações técnicas, cautela no discurso e solicitações de “respeito às garantias”.

É lamentável notar que esse mesmo campo político defende veementemente a ideia de que a esquerda "defende bandidos". Para a direita brasileira, direitos humanos, garantias constitucionais e políticas de ressocialização, como exemplo, são retratados de forma exagerada como cumplicidade com o crime; ao passo que a realidade mostra que muitos dos que drenam recursos públicos, manipulam mercados e corroem a confiança institucional não estão nas periferias, mas nos andares altos do poder econômico e político deste país.

O caso mais recente envolvendo o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), Rodrigo Bacellar (UB), é representativo, mostra que as investigações que atingem o auge do Legislativo fluminense corroboram com uma realidade desconfortável: o crime organizado não se restringe a áreas marginalizadas, mas também está infiltrado - e muito bem infiltrado - em gabinetes, contratos públicos e instituições oficiais do Estado. Mesmo assim, a resposta de alguns setores da direita tende a ser defensiva, caracterizada por solidariedade política e alegações vagas de abusos por parte do Poder Judiciário.

O discurso punitivista evidencia essa seletividade, pois quando se trata de jovens pobres ou moradores de comunidades, a diretriz é a de “tolerância zero”. Por outro lado, quando os investigados fazem parte das elites econômicas ou têm ligações com partidos conservadores, aparecem, no mínimo, os apelos à presunção de inocência e às garantias legais.

Ao persistir em acusar a esquerda de defender criminosos, ao mesmo tempo em que minimiza os crimes de colarinho branco, uma parte da direita - senão toda ela - demonstra menos dedicação à justiça e mais interesse em um projeto de poder. Dessa forma, a moral seletiva empobrece o debate público e mina a credibilidade de qualquer discurso sério sobre segurança e legalidade.

Enquanto nos aproximamos do final deste escrito é possível inferir que se há algo que a operação na Faria Lima, assim como outros acontecimentos policiais recentes neste país evidenciam, é que o desafio no Brasil não é a ausência de um discurso contra o crime, mas a determinação de quem pode ser considerado criminoso. É possível dizer ainda que o combate à criminalidade não deve ser refém de interesses ideológicos, tampouco seletivos e de acordo com o status social dos investigados.

Em suma, o discurso da moralidade permanecerá vazio se essa contradição não for abordada; até porque combater o crime requer, no mínimo consistência, mesmo quando os suspeitos estão de gravata, circulando pela Faria Lima ou ocupando posições estratégicas nos governos. Caso contrário, a retórica punitivista da direita brasileira, sobretudo, nos últimos tempos, continuará sendo apenas isso mesmo: RETÓRICA.

FSA-BA, 16 de dezembro de 2025.

Por Carlos Alberto, professor, radialista e mestre de cerimônias.

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