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Entre escândalos e torcidas políticas: afinal, quem está errado, a política ou os políticos brasileiros?

Nos últimos tempos, segundo informações colhidas, o Brasil tem se acostumado com algo que já não espanta tanto: a participação constante de figuras políticas, do mundo dos negócios, do setor financeiro e do serviço público em investigações policiais que ganham grande destaque no país e até fora dele. Desde a histórica Operação Lava Jato até os escândalos mais recentes com emendas parlamentares, passando por acusações de irregularidades no INSS, desconfianças no mercado financeiro da Faria Lima, o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os debates sobre o Banco Master, o país parece viver em um ciclo sem fim de operações, informações que vazam, prisões, acusações e crises nas instituições.

Diante do surgimento contínuo de novas ocorrências, paira uma indagação persistente: em última análise, onde reside a falha, na política, nos políticos ou no eleitorado brasileiro?

Para entender essa questão, parece tentador concluir, de forma superficial, que o cerne do problema reside unicamente nos indivíduos. No entanto, observa-se a alternância de figuras, legendas partidárias e administrações, contudo, os episódios de corrupção persistem. Por outro lado, pode ser um equívoco limitar a análise a “políticos corruptos”. Os acontecimentos recentes revelam uma questão mais complexa: um sistema institucional que fomenta a troca de benefícios, o uso político de recursos do Estado, o apoio financeiro velado ao poder e uma tradição cultural de indistinção entre o interesse público e interesse privado.

OS ESCÂNDALOS
A histórica Operação Lava Jato revelou um intrincado esquema corrupção – e corruptos – que envolveu acordos governamentais, construtoras, partidos políticos e recursos financeiros para campanhas, entre outros desmandos. Naquele momento, houve quem pensasse que o Brasil passaria por uma renovação completa nos seus valores, o que não se viu: o sistema político absorveu o impacto, reorganizou-se e seguiu funcionando. Alguns personagens políticos caíram; outros retornaram ainda mais fortalecidos, mas a estrutura permaneceu praticamente intacta.

Posteriormente, as controvérsias emergiram acerca das denominadas “emendas secretas”, um expediente que conferiu ao Congresso Nacional maior influência sobre vastas quantias do orçamento nacional. Essa discussão evidenciou uma anomalia inquietante: legisladores passaram a gerir verbas públicas com pouca ou nenhuma transparência, fortalecendo redutos políticos e laços de subordinação entre gestores municipais, eleitorado e agentes econômicos regionais. Frequentemente, a premissa republicana da fiscalização foi substituída pela premissa da manutenção do poder político.

Mais recentemente, novas suspeitas envolvendo fundos financeiros, operadores do mercado e instituições privadas reforçaram outro problema brasileiro: a proximidade excessiva entre política, negócios e influência econômica. Em Brasília e na Faria Lima, por vezes, a impressão que se tem é a de que há uma divisa quase imperceptível – e vulnerável – entre o bem comum do país e as ambições de certos grupos com notável poder de influência sobre o Estado.

O caso do Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS, em contrapartida, toca numa ferida ainda mais sensível: a ideia de que até mesmo as instituições feitas para amparar os mais necessitados se tornam suscetíveis a fraudes, indicações políticas e redes de favorecimento. Quando irregularidades vêm à tona em setores como seguridade social, saúde ou apoio social, a indignação geral é ainda maior, pois a corrupção deixa de ser meramente uma questão de dinheiro e passa a atingir diretamente a dignidade de cada pessoa beneficiada.

O episódio envolvendo Ciro Nogueira reacende justamente esse debate sobre o grau de promiscuidade entre poder político, influência econômica e investigações criminais. Independentemente do desfecho jurídico de qualquer caso – e o devido processo legal deve sempre ser respeitado – o simples fato de tantas lideranças nacionais aparecerem repetidamente associadas a operações policiais revela um ambiente político adoecido.

O caso que, segundo a Polícia Federal, envolve o senador da República pelo PR do Piauí, Ciro Nogueira, traz a tona, mais uma vez, a discussão sobre a promiscuidade entre o poder na política, influência econômica e investigações criminais. Sem levar em conta a decisão final da Justiça em cada situação – e o devido processo legal deve sempre ser respeitado -, a simples constatação de que tantos nomes importantes da política brasileira são frequentemente ligados a ações da polícia demonstra um cenário político, no mínimo, adoecido.

E A POPULAÇÃO – ELEITORES?
É crucial reiterar que, além de todas as questões mencionadas, enfrentamos um desafio arraigado em nossa cultura: no Brasil, os escândalos de corrupção se tornaram algo corriqueiro. A cada nova operação, há indignação momentânea, polarização nas redes sociais e disputas narrativas entre grupos políticos, mas, pouco tempo depois surge outro caso, e o anterior é esquecido. A corrupção tornou-se episódica no noticiário, mas estrutural na percepção popular, produzindo um efeito devastador: a banalização.

Quiçá, um dos aspectos mais preocupantes da política brasileira atual seja justamente a transformação do debate público em uma disputa de torcidas. Muitos brasileiros e brasileiras apoiam políticos e partidos políticos da mesma forma que se apoia time de futebol: relativizando acusações, diminuindo a gravidade de escândalos ou criticando instituições, conforme quem está sob investigação. Quando o investigado é “do outro lado”, há indignação e exigências de penalização; quando é parte do grupo preferido, aparecem justificativas, teorias de perseguição e tentativas de normalização.

O Brasil parece ter atingido um estágio em que uma parte da sociedade não analisa mais ações, valores ou comportamentos, mas sim apenas lados políticos, e a corrupção deixou de ser algo universalmente reprovável para ser entendida de acordo com a conveniência ideológica. Para muitos, o problema não é a corrupção em si, mas quem está sendo apontado. Daí a razão pela qual tantos escândalos se repetem e políticos percebem que, mesmo sob investigação, ainda estarão resguardados por parcelas do eleitorado que veem adversários como inimigos incondicionais e aliados como intocáveis.

Esse comportamento ajuda a perpetuar o problema, porque substitui a cobrança ética pela lealdade política e, no final, cria-se a falsa ideia de que existem “corruptos aceitáveis”, desde que estejam do lado considerado correto. É possível que essa seja uma das maiores tragédias da democracia brasileira: a incapacidade de uma parte da sociedade de criticar seus próprios aliados com a mesma severidade que direcionam críticas aos adversários.

No momento em que a sociedade passa a acreditar que “todos são iguais”, abre-se espaço para o cinismo político. E o cinismo é perigoso porque destrói a confiança nas instituições democráticas. Sem confiança, cresce o descrédito no Congresso, no Judiciário, nos partidos e até nos órgãos de investigação. Nesse ambiente, prosperam discursos autoritários, soluções simplistas e líderes que prometem “limpar tudo”, embora muitas vezes acabem reproduzindo as mesmas práticas que criticavam.

Quando as pessoas começam a aceitar a ideia de que “todos são iguais”, cria-se, perigosamente, terreno fértil para o cinismo político e, consequentemente, a confiança nas instituições democráticas é corroída. Nesse contexto, discursos autoritários, soluções simplistas e líderes que prometem “limpar tudo” encontram um ambiente propício para prosperar, embora frequentemente acabem repetindo as mesmas práticas que criticavam.

O MODELO POLÍTCO BRASILEIRO
Outro fator importante – e que não pode ser esquecido – é o modelo político brasileiro: um sistema de partidos fragmentado, com elevado custo das campanhas eleitorais, com a necessidade de amplas alianças e o presidencialismo de coalizão, tudo isso estabelece incentivos constantes para que essas negociações ocorram de forma pouco transparente, ou mesmo sem transparência. Governos necessitam do suporte do parlamento; parlamentares dependem de recursos e influência; grupos empresariais almejam acesso ao poder e, quando não há sistemas de transparência e controle bem definidos, o que se tem é um campo aberto para desvios.

Isso não significa afirmar, em último caso, que toda a política brasileira ou que todos os políticos brasileiros sejam corruptos, pois há servidores públicos sérios, parlamentares comprometidos e instituições que funcionam. O problema é que o sistema parece premiar mais a habilidade de sobrevivência política do que a integridade pública e, enquanto isso não mudar, novas operações policiais – acreditem – continuarão surgindo.

POSSIVEL RESPOSTA
Quem sabe a resposta não esteja aí, na junção das duas coisas: políticos formados por um sistema corrupto e uma estrutura política que, muitas vezes, incentiva práticas reprováveis ao invés de enfrentá-las. Para além disso, há também a responsabilidade de uma sociedade que, muitas vezes, substitui o pensamento crítico pela paixão política, elevando os líderes públicos a figuras intocáveis.

O PERIGO
Para concluir – o texto, até porque a discussão em questão não acaba – gostaria de enfatizar que, enquanto o país não se empenhar de forma simultânea em lidar com a cultura política, as distorções institucionais e a responsabilidade individual de seus representantes – assim como a de seus eleitores – o Brasil estará fadado a enfrentar novos escândalos, novas operações e a persistente sensação de impunidade. Isso porque, em nossa modesta opinião, o verdadeiro perigo não é apenas a existência de escândalos, mas quando estes escândalos deixam de causar espanto.

FSA-BA, 13 de maio de 2026 – Dia da Abolição da Escravatura no Brasil.

Por: Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.

Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Mayara Nayllanne

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