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O ciclo da corrupção no Rio de Janeiro: escândalos mudam, escolhas nem tanto

Foto: Banco de Imagens Grupo Cataratas

Por Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.

A recente trajetória política do Rio de Janeiro (sic) é caracterizada por uma série de escândalos que revelam fragilidades significativas nas instituições e na conexão entre representantes e representados. Nas últimas décadas, o estado tem testemunhado uma série de governadores envolvidos em investigações, detenções ou afastamentos, o que gera uma dúvida frequente no senso comum: será que o eleitor fluminense ainda não “aprendeu a votar”?

O fato é que esse cenário de políticos sob investigação judicial não surgiu de maneira súbita; casos anteriores já apontavam para problemas estruturais na política do estado do Rio de Janeiro. Um exemplo é o ex-governador Marcello Alencar, que governou o estado nos anos 90 e enfrentou acusações e investigações ligadas à sua administração, mesmo em um contexto anterior às grandes operações anticorrupção deste século.

Na virada dos anos 2000, o estado foi governado por Anthony Garotinho, que, ao longo de sua trajetória política se tornou alvo de diversas investigações, incluindo acusações de corrupção eleitoral e uso indevido de programas sociais. Sua sucessora e esposa, Rosinha Garotinho, também enfrentou processos judiciais e chegou a ser presa, evidenciando a continuidade de práticas questionáveis dentro de um mesmo grupo político.

Na década seguinte, o Rio de Janeiro passou por um dos períodos mais notórios de escândalos durante, desta feita no governo de Sérgio Cabral, preso em 2016 como parte da Operação Lava Jato. Cabral foi sentenciado por vários delitos, como corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em um esquema que desviou milhões de reais dos cofres públicos.

Luiz Fernando Pezão, sucessor de Cabral, foi igualmente preso em 2018, sob a acusação de participar do mesmo esquema de corrupção, o que reforçou a percepção de que as práticas ilegais continuavam na estrutura de poder do estado. Em seguida, o estado elegeu Wilson Witzel, que se apresentava como uma opção “nova” em relação à política convencional, contudo, o “novo” Witzel foi afastado do cargo em 2020 vindo, posteriormente, a sofrer impeachment, também por corrupção ligada à saúde durante a pandemia de COVID-19.

Com o afastamento do então governador Wilson Witzel, o vice-governador Cláudio Castro assumiu interinamente o governo do Rio em 28 de agosto de 2020, sendo empossado como titular em 1.º de maio de 2021. Embora Cláudio Castro não tenha sido preso – ainda – é alvo de investigações, o que mantém o clima de, no mínimo, desconfiança na política estadual.

Nesta segunda-feira (23), o governador do Rio de Janeiro Claudio Castro renunciou ao cargo para, segundo ele, concorrer a uma vaga ao Senado Federal nas eleições majoritárias de outubro próximo. Salvo melhor juízo, a renúncia não se tratava de qualquer pretensão em disputar uma vaga em 2026, mas sim, pelo fato de enfrentar diversas investigações, incluindo indiciamento pela Polícia Federal por corrupção e peculato, além de tentar evitar condenação/cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

A tentativa do ex-governador não deu certo, tendo em vista que por cinco votos a dois, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu nesta terça-feira (24) condená-lo por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Com a decisão do TSE Cláudio Castro está inelegível por oito anos, prazo contado a partir da eleição que deu causa à condenação, ou seja, 2022, assim, Castro não poderá concorrer ao Senado da República em outubro próximo.

Para não citar outros exemplos, o problema, porém, não se restringe ao Executivo no caso do Rio de Janeiro; a Assembleia Legislativa daquele estado tem sido palco frequente de escândalos. Ex-presidentes da Casa, como Jorge Picciani foram presos sob acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa e Rodrigo Bacellar que foi afastado do cargo e tornou-se réu por suspeitas de lavagem de dinheiro, obstrução de investigação e ligações com organização criminosa entre outros exemplos de deputados envolvidos em escândalos os mais diversos.

No âmbito municipal, a situação não é muito distinta; vereadores da capital e de outras cidades do estado do Rio de Janeiro têm sido frequentemente investigados por corrupção, milícias e outros delitos. O assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018, por exemplo, aumentou a visibilidade das ligações perigosas entre política, crime organizado e estruturas de poder locais no Rio.

Nesse cenário, várias questões surgem, sendo a mais relevante: o eleitor carioca ainda não ‘aprendeu’ a votar? Embora possa parecer simples, essa pergunta expõe uma realidade complexa: o voto no Rio de Janeiro parece ser apenas a etapa final de um processo que envolve desigualdade social, acesso limitado a informação de qualidade, uso da máquina política, clientelismo e, muitas vezes, coerção indireta por grupos de poder territorial, como milícias.

Ademais, existe um fenômeno comum de renovação aparente: candidatos se apresentam como “novos”, “outsiders” ou “antissistema”, porém acabam adotando práticas semelhantes às de seus predecessores. Isso parece que tem feito com tudo se torne mais difícil para o eleitor identificar quem realmente representa uma mudança significativa na cultura política atual.

Cabe, no entendo, chamar a atenção do eleitor para que não reduza a crise política do Rio de Janeiro como uma suposta incapacidade do eleitor, o que simplificaria excessivamente o problema. O que se observa é um sistema político fragilizado, no qual práticas ilícitas se enraizaram ao longo do tempo e onde o controle social ainda enfrenta muitos obstáculos.

Concluindo o texto e não o tema em discussão, além de “aprender a votar”, o desafio envolve o fortalecimento das instituições, o aumento da transparência, o investimento em educação política e a garantia de condições para que o eleitor possa exercer seu direito de maneira livre, consciente e informada. Caso contrário, o ciclo de escândalos provavelmente se repetirá, independentemente de quem esteja nas urnas ou nos palácios governamentais.

FSA-BA, 25/03/2026.

Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.

Hely Beltrão

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