O Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) realizou, nesta segunda-feira (25), uma coletiva de imprensa para discutir o trânsito de Feira de Santana e apresentar ações voltadas à redução de acidentes na cidade e na região. O encontro aconteceu no auditório da unidade hospitalar e reuniu representantes do Ministério Público, Polícia Militar, Superintendência Municipal de Trânsito (SMT), classe política e profissionais da saúde.
O promotor Audo Rodrigues destacou que os últimos números apresentados apontam uma pequena redução nos acidentes de trânsito. “O objetivo inicialmente foi trazer a população, que é a maior beneficiária desse trabalho muito importante que está sendo feito por essas entidades, todos os responsáveis, na tentativa de gerar diminuição de acidentes. Dentro dos números iniciais que foram apresentados, houve uma discreta mudança, muito positiva, na diminuição”, diz.

Segundo ele, parte significativa dos acidentes em Feira de Santana está concentrada no trecho não duplicado do Anel de Contorno. “Evidentemente, sabemos das condições de conservação, falando especificamente do Anel de Contorno, que foi privatizado um tempo atrás. Pelos números obtidos pela PRF, o trecho com maior número de acidentes de trânsito hoje é o que não está duplicado ainda, mas estamos em vias de duplicação. Segundo informações da PRF, nos trechos anteriores onde aconteciam muitos acidentes, após a duplicação, houve redução de 90%. Então o foco de acidentes em Feira de Santana é aquele que fica entre o Viaduto Portal do Sertão e o bairro Cidade Nova, que é justamente o que não está duplicado. Entretanto, não posso jogar a culpa só no poder público, quando há uma responsabilidade primária do condutor”.
O promotor diz ainda que existe uma proposta institucional do MP para fazer com que essa preocupação com acidentes de trânsito e com a fiscalização, para evitar danos à saúde pública, seja também replicada em outros municípios da Bahia.
O superintendente municipal de Trânsito, Ricardo Cunha, ressaltou a necessidade de ampliar ações educativas e de conscientização, principalmente nos distritos rurais. “A gente tem que melhorar a qualidade do atendimento nos postos de saúde de Feira de Santana, principalmente no Distrito de Humildes, pois estamos tendo uma grande quantidade de sinistros com vítimas oriundos desses distritos. Por conta de uma ação conjunta da Polícia Militar e da SMT, acho que, nesse momento, seria pertinente colocar as pessoas para usarem capacete. Não tenho interesse nenhum na aplicação de penalidade. O que a gente quer é trabalhar a consciência, para que as pessoas possam começar a usar capacete em todos os distritos de Feira de Santana”.

Cunha anunciou a criação de um sistema integrado entre unidades de saúde e órgãos de trânsito para mapear os pontos com maior incidência de acidentes. “Todos os locais da saúde de Feira de Santana que recebem vítimas de sinistros de trânsito vamos interagir em um sistema só, que ficará à disposição da SMT, para que a gente tenha o mapa de calor e possa atacar o local onde haja maior número de acidentes”.
Já o deputado federal Zé Neto chamou atenção para o impacto dos acidentes no sistema de saúde pública. Ele ressaltou que cerca de 78% dos leitos ocupados no HGCA são destinados a vítimas de acidentes de trânsito, principalmente envolvendo motocicletas.

“Esse debate sobre trânsito é fundamental para desmistificar situações que a gente ouve e só será resolvido com ação conjunta, inclusive com vocês da imprensa presente também, pois vocês vivem o dia a dia da cidade. 78% da ocupação de leitos do Hospital Clériston Andrade é com acidentes de veículos, principalmente de motocicletas. Tem como uma sociedade ficar de pé? Depois as pessoas reclamam que têm dificuldade com a regulação, porque hoje um hospital que tem cerca de 300 leitos, eram apenas 90 no passado, que tinha apenas 9 leitos de UTI e hoje tem 68, indo para 80 agora, e mesmo assim não terá hospital que dê jeito. Então precisamos nos reunir enquanto sociedade, organizar essa caminhada, com vocês da imprensa inclusive. Devemos, inclusive, combater as falsas informações que geram um ambiente de desconforto e irregularidade na cidade. Se a gente não enfrentar a situação do trânsito, de cabeça erguida, organizadamente, com cautela, respeitando os trabalhadores, sobretudo respeitando a vida, não vamos avançar”.
Neto falou também sobre o combate à desinformação deliberada sobre ocorrências de trânsito. “Temos um projeto de lei que visa criar situações que identifiquem de onde vieram os perfis fakes, quem são as pessoas que fizeram e penalizar essas pessoas. Perfil fake sobre trânsito tem muitos. No dia a dia tem sobre tudo, tem pessoas que se passam por crianças, manipulando até as vozes, para espalhar desinformação e até cometer pedofilia, os chamados deepfakes. No caso do trânsito, precisamos enfrentar isso também. Além disso, em um momento como esse, é importante que todos participem, junto ao Ministério Público. Inclusive fiz um apelo ao Audo para que volte o Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (SISP), que é uma reunião de todos os órgãos da cidade, junto à Polícia Federal, que vai ajudar muito, com as outras forças policiais, o estado, vocês da imprensa, para fazer um trabalho melhor de manutenção da ordem e, acima de tudo, de prevenção no trânsito”.

A diretora-geral do HGCA, Cristiana França, informou que os primeiros meses de 2026 já apresentaram uma discreta redução no número de acidentes em comparação com 2025, embora os índices ainda sejam considerados elevados. Ela destacou que as fraturas de membros inferiores estão entre as lesões mais recorrentes nos pacientes vítimas de sinistros. Segundo a gestora, o hospital vem articulando ações com o Ministério Público e municípios da região para desenvolver estratégias de prevenção.
“Vemos que são números ainda muito incipientes, mas já significam uma melhora no trânsito de Feira de Santana em termos de acidentes que vêm para o HGCA. Mas, ao mesmo tempo, no entorno de Feira, está crescendo. Acho que esse é um chamamento para que todo mundo tenha a sua responsabilidade na diminuição dos acidentes de trânsito. Nós estamos trabalhando por etapas, já fizemos o Quorum, estamos fazendo as entrevistas, mandamos as cartas de intenção para o MP, que agora vai ter que chamar os prefeitos e coordenadores das superintendências de trânsito desses municípios para ver o que vai fazer para diminuir as ocorrências”.
“Os três primeiros meses de 2026 já dizem que houve uma redução pequena, mas que já está acontecendo. Se a gente pegar os números de 2025 e os de 2026, vemos que há uma pequena redução, muito discreta, mas que é um bom momento. Os casos mais frequentes são as fraturas de membros inferiores, mas as de membros superiores, cabeça, face, por conta do não uso do capacete, também acontecem muito. Membros inferiores são as lesões mais recorrentes e complexas. Isso é importante que se diga. Estamos fazendo nossas ações em etapas. Resolver problemas de trânsito não pode ser de um dia para o outro, então estamos tentando conversar também com as empresas de aplicativos, para a gente ver, juntos, o que pode ser feito para que a categoria, que é tão demandada, possa diminuir os acidentados”, diz França.
O comandante do Comando de Policiamento Regional Leste (CPRL), coronel Muller, afirmou que o comportamento imprudente dos condutores, especialmente motociclistas, é um dos principais fatores para os altos índices de acidentes.

“O trânsito deve servir para oportunizar que as pessoas se desloquem dentro do tempo desejado, com o conforto desejado, e isso não vem acontecendo por diversas razões. Notadamente, temos dado conta de que o cidadão é que não tem colaborado para que o trânsito flua da forma que se deseja. Claro que também existem outros fatores relacionados às vias, mas, em especial, ao próprio cidadão, principalmente o condutor de veículo automotor, especialmente o condutor de motocicletas. Esse fato vem sendo observado não só pelas instituições, mas as próprias pessoas também denunciam os comportamentos indesejados nas vias. Tudo isso oferece risco iminente de acidente e, como consequência, lesão nas pessoas que utilizam as vias. As vítimas de acidente têm sido conduzidas para nossas unidades hospitalares, em especial o HGCA, que está com cerca de 80% dos leitos ocupados por pessoas vítimas de acidentes”.
O coronel informou que cerca de 1.800 policiais militares atuam na fiscalização do trânsito na região e defendeu medidas urgentes para reduzir os índices de violência viária.
“Esses números nos indicam necessidade urgente de medidas para estabilizar em um patamar minimamente aceitável pela OMS em relação a acidentes. Temos em Feira de Santana, atuando sob subordinação do comando da região, 1.800 policiais militares atuando no trânsito. Sempre digo que é um número que nos agrada e nos permite fazer nosso trabalho. Lembrando que o trânsito não é o ‘cerro forte’ da PM, temos muitas outras atividades. Entretanto, assim como nós abraçamos a Ronda Escolar, a Ronda Maria da Penha, entre outras, o trânsito é apenas mais um, mas vamos dar atenção, só que vamos dar ainda mais atenção por conta da realidade que temos enfrentado, que é um grave problema para a saúde e que tem trazido a violência no trânsito para a Região Leste”, diz.