O médico Tiago Almeida, candidato à direção do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed-BA), fez duras críticas à gestão anterior da entidade e afirmou que a Justiça identificou irregularidades envolvendo a utilização de registros profissionais de médicos já falecidos durante um processo eleitoral da instituição.
As declarações foram feitas durante entrevista ao programa Levante a Voz, com apresentação do jornalista Luiz Santos, na Rádio Sociedade News, onde o médico comentou a disputa pela direção do sindicato, cuja eleição está marcada para os dias 29 e 30 deste mês.
Segundo Tiago Almeida, que é conselheiro nacional de Saúde, diretor de Saúde da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e integrante da chapa "Renova Sindimed", a entidade enfrenta uma crise de credibilidade após sucessivos episódios envolvendo questionamentos sobre a administração sindical. O médico também afirmou que a prestação de contas da gestão anterior foi rejeitada e mencionou a previsão de gastos com remuneração de dirigentes sindicais.
“Há algum tempo o sindicato se atolou em escândalos de corrupção! Na última gestão do sindicato, os médicos estavam recebendo uma remuneração salarial que é proibida pela legislação sindical. Estava programado para 2026 o valor de R$ 919 mil para alguns diretores, e isso foi rejeitado pela prestação de contas. A Justiça também entrou no caso e percebeu que tinham colocado nomes de pessoas não médicas, com CRM e registros de médicos falecidos, como Edgard Santos, que dá nome ao Hospital das Clínicas, Sebastião Loureiro e vários desses médicos famosos, para ter vantagem na eleição. A Justiça anulou o processo eleitoral e instalou novo processo, que é o que a gente está disputando agora, nos dias 29 e 30 deste mês. Isso nos envergonha enquanto categoria! Como um médico quer ser respeitado pela sociedade, que deve ser um exemplo de ética, se envolve em um cenário desses? Por isso a necessidade de reconstruir a credibilidade do sindicato”, diz Tiago.
De acordo com o médico, entre os registros usados para fraudar eleições estariam números pertencentes a profissionais históricos da medicina baiana. Essas supostas irregularidades levaram a Justiça a anular o processo eleitoral anterior e determinar a realização de uma nova eleição.
“Era como se os médicos que já morreram estivessem aptos a votar, mas com nome de advogados, enfermeiros, profissionais de banco, entre vários outros que foram implantados na lista para ter vantagem eleitoral. Tinha médico formado em 1928 e utilizaram o CRM dele. Médicos famosos que foram professores, catedráticos da Universidade Federal da Bahia, um dos fundadores da Escola Baiana de Medicina. Estavam lá os registros deles. Não colocaram nomes, porque todo mundo ia reconhecer, mas colocaram registros com advogados, terapeutas ocupacionais. A Justiça olhou para uma questão dessas e a sociedade também olhou e pensou: 'Não é possível'.”
Dificuldades da categoria
Tiago abordou ainda questões relacionadas às condições de trabalho da categoria. Segundo ele, apenas cerca de um terço dos médicos possui vínculo formal de trabalho, enquanto a maioria atua por meio de contratos de pessoa jurídica (PJ).
“Hoje, um terço dos médicos tem contrato formal. Os outros dois terços são contratados por PJ. Essa PJ às vezes tem uma remuneração um pouco maior, mas está aquém do que a sociedade imagina que um médico ganha. Já os que são chamados de ‘sesabianos’, que são concursados ou CLT, ganham entre R$ 3 mil e R$ 5 mil por mês em uma carga horária de 20 horas. A gente imagina que é mais. Tem médico que ganha no mês inteiro o que outros médicos ganham em um plantão. Temos que debater sobre a valorização desse profissional.”
Ele também destacou diferenças salariais existentes dentro da própria categoria e defendeu maior valorização dos profissionais da saúde.
“O médico vai estar onde tiver condição de trabalho. Hoje temos uma boa quantidade de médicos, não falta em termo de números. O Brasil hoje tem cerca de 700 mil médicos, na Bahia são mais de 30 mil. Não faltam profissionais, falta é qualidade de médicos, e ele estar no lugar certo e na especialidade certa. Isso se faz com política sindical, em articulação com o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) e com as outras entidades médicas e de mobilização de luta. Eu pergunto ao médico de Feira de Santana: qual foi a última vez que você viu o sindicato realmente presente dentro da unidade de saúde? Tenho certeza que a resposta é que nunca viu. Quem está presente nos cursos de medicina são as empresas que querem abrir a PJ, os escritórios. Essas financiam o meio médico, a formatura, elas estão presentes, mas o sindicato está ausente. É isso que a gente quer reverter.”
Formação médica
Almeida também criticou a qualidade de parte dos cursos de medicina existentes no país e defendeu maior rigor na fiscalização das instituições de ensino.
“A proposta da nossa chapa, de nome ‘Renova Sindimed’, é exatamente de não tolerar esse tipo de faculdade que não tem qualidade para formar. A gente viu que um terço dos médicos não estava apto, com as qualidades mínimas. As escolas têm uma pontuação de 1 a 5 e, das escolas com fins lucrativos, 60% tiveram notas ruins. Das públicas, como Uefs e Ufba, 80% delas tiveram nota boa. Imaginem que vão entrar em um avião e apenas um terço dos pilotos sabe pilotar. Vocês entrariam? Você entraria no avião? Imagine você ser atendido por um médico de uma faculdade que só forma bem um terço dos médicos. Ninguém tolera isso. Temos que punir faculdades que não têm qualidade e até fechar, se necessário, e não só responsabilizar o médico ruim.”