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“Interesse no petróleo e riquezas minerais”, diz especialista em direito internacional sobre ataque dos EUA a Venezuela

Arquivo Pessoal

Por Hely Beltrão

O mundo foi pego de surpresa com o bombardeio e a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa por forças especiais norte americanas neste sábado (3). As informações foram divulgadas na imprensa internacional pelo presidente Donald Trump, que já vinha sinalizando há muito tempo suas intenções.

Ao Conectado News, o professor Matheus Souza, Bacharel em Relações Internacionais, especialista pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) em relações internacionais, geopolítica e defesa, PUC-MG, em direito internacional e direitos humanos e professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Pará, disse que o ataque realizado pelos Estados Unidos da América (EUA) é norteado por interesse nas riquezas petrolíferas e minerais da Venezuela, país com a maior reserva de petróleo do mundo.

“O que está por trás são interesses geopolíticos, a Venezuela sempre foi uma nação que guarda riquezas petrolíferas e minerais de grande valor, dos EUA mantém interesses nessa riqueza. Na estratégia de segurança nacional dos EUA publicada no final de novembro de 2025 fica claro esse interesse em restabelecer a América Latina como zona de influência geopolítica e estratégia dos  norte americanos nos moldes da antiga doutrina Monroe, aquela ideia anti colonialista europeia do século XIX, América para os americanos, agora repaginada como “América First (América Primeiro), busca retomar todo o hemisfério para si numa lógica de autarquia, ou seja, é a capacidade que um país tem de garantir para si todos os recursos  estratégicos sem a necessidade de cooperar com ninguém ou depender de relações de troca. Na medida em que os EUA reafirmam, também através de discursos de autoridades oficiais do governo Trump o uso de expressões como “Backyard” (quintal) para se referir a América Latina e ao Caribe, na medida que seu governo reafirma seu interesse no hemisfério e vemos ações como as de hoje, percebemos na prática, norma e na projeção de política pública a concretização desses interesses geopolíticos em recursos estratégicos numa lógica de autarquia.  Também há por trás dessa ação, a dimensão da política doméstica, uma sinalização de Trump para sua base eleitoral diante dos baixos índices de avaliação de seu governo e também da necessidade do próprio presidente em satisfazer alguns atores econômicos, os grandes empresários dos Estados Unidos, especialmente do setor petroleiro e seus associados”. 

Mais: Editar post “Governo brasileiro condena ataque do EUA à Venezuela: “inaceitável”

Ao ser questionado se houve facilitação das autoridades venezuelanas para a captura de Maduro e sua esposa, o professor disse que é uma hipótese possível, utilizando como exemplo a tentativa de golpe contra Hugo Chávez.

“Em termos de captura do mandatário e sua respectiva esposa não tenho notícia na história recente na Venezuela, mas é uma hipótese plausível a facilitação por parte de estruturas da burocracia venezuelana ou do alto escalão militar, um grande exemplo foi a situação ocorrida no começo do século XXI, o golpe dado à época contra o antecessor do maduro, Hugo Chávez, que conseguiu reverter uma trama patrocinada pelos Estados Unidos que contou com a colaboração de setores militares venezuelanos”. 

Rússia e China sempre condenaram as intenções dos EUA com declarações duras contra o presidente Trump. Sobre isso, Matheus Souza disse não acreditar que haverá apoio militar por parte destes países, já na via econômica, dependerá da movimentação dos norte americanos nos próximos dias.

“Um apoio na esfera militar, com envio de de tropas é muito improvável, até por conta das próprias tensões que China e Rússia têm em seus entornos estratégicos, vale lembrar que a Rússia está em guerra com a Ucrânia desde 2022 e a China com Taiwan, inclusive com exercícios militares nos últimos dias nas proximidades da ilha que a China considera como uma província rebelde, não como um país, então, por conta desses acontecimentos, o envio de tropas me parece improvável, o que é até melhor, do ponto de vista militar e geopolítico porque poderia gerar uma escalada do conflito, o que não interessa aos atores da região, inclusive ao Brasil. Algumas manifestações no campo diplomático já tem acontecido, inclusive o próprio Nicolás Maduro recebeu uma delegação chinesa na véspera do ataque, é muito possível que a Venezuela tenha sido atacada durante a presença de diplomatas chineses, algo que seria um fator de complicação dessa situação que está formada, já houve declaração oficial da China, o presidente da Rússia Vladimir Putin já se manifestou cobrando do presidente Trump informações sobre o paradeiro de Maduro e sua esposa, a diplomacia brasileira também está se movimentando, o presidente Lula (PT) realizou uma reunião com seus conselheiros na manhã deste sábado (3), o ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, interrompeu suas férias para atender a esta demanda. Do ponto de vista de cooperação financeira e técnica, que envolveria envio de equipamentos, há de se aguardar se irá avançar, é possível que Rússia e China avancem nesse sentido de enviar à Venezuela recursos para uma eventual manutenção da resistência, porém, tudo isso há de depender, na minha perspectiva, de como a situação vai se desenrolar daqui para a frente, temos agora a vice-presidência, que passa a exercer o poder no país, uma vez que Maduro e sua esposa estão em poder dos Estados Unidos, é possível que ações de ataque direto ao território venezuelano não continuem, mas os ataques aos petroleiros sim, ou seja, há de se avaliar nos próximos dias como é os EUA vão movimentar as peças do tabuleiro geopolítico no que se refere à Venezuela”, concluiu.

Hely Beltrão

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