“E, por se multiplicar a maldade, o amor de muitos esfriará. ” (Mateus 24:12)
Por Emanuelle Pilger, Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Antes que alguém me pergunte, como pergunta todos os dias, se sou evangélica, eu respondo com tranquilidade: desde criança me ensinaram que Deus é amor. E que a fé em um Ser supremo, que protege e acolhe, independe de rótulos religiosos. A cidade do pensamento, na minha concepção, não se limita a credos.
O que me inquieta não é a religião. É a maldade humana.
Casos distintos se acumulam diante de nós: um síndico que tira a vida da vizinha em Minas Gerais; crianças desaparecidas em Bacabal, no Maranhão; animais mortos com crueldade; violências justificadas pela certeza da impunidade. São fatos separados, mas que se encontram no mesmo ponto: a banalização do mal.
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A maldade do outro não nasce do nada. Ela é construída. Vai além da educação religiosa e começa na primeira infância, dentro de casa, na formação da personalidade. Quem machuca um animal, machuca um ser humano. Quem age sem empatia, age sem limites. E o mais assustador: faz isso sem emoção, sem culpa, sem receio, muitas vezes certo de que nada acontecerá.
Vivemos em uma sociedade competitiva, adoecida, onde o amor básico já não existe porque não existe amor a si mesmo. Pessoas irritadas, vazias, descrentes de tudo. E quando não se acredita em nada, tudo passa a ser permitido.
O Deus do amor torna-se negociável. O deus do dinheiro, não. Mata-se um animal. Mata-se uma pessoa. Tenta-se esconder. Exibe-se uma vida falsa nas redes sociais enquanto a violência se normaliza.
O mais preocupante não é apenas o ato de ferir o outro, seja um ser humano ou um animal, mas a certeza da impunidade. Isso alimenta agressividade, impulsividade e brutalidade coletiva.
Diante disso, a pergunta que fica é: o que podemos fazer?
Talvez começar pelo que habita em nós. Pelo que alimentamos na mente, no coração, nas emoções. Conectar-nos com o que é bom: ideias, sentimentos, causas justas, situações que inspiram, atividades que nos devolvem humanidade. Respirar. Refletir. Escolher.
Porque, se o amor de muitos está esfriando, resistir também é um ato.
E amar verdadeiramente em um mundo adoecido é uma forma de coragem.




