Alunos de cursos de medicina privados vão pior que os da rede pública em 94% das questões do Enamed
Mesmo com perfil socioeconômico superior, concluintes de medicina de cursos privados tiveram desempenho pior que os de instituições públicas em 94% das questões do Enamed, avaliação do MEC, segundo análise da Folha de S.Paulo. Dos 107 cursos com notas insuficientes (1 e 2), 87 são privados, com mensalidades de até R$ 17 mil, entre 350 cursos avaliados.
Pesquisas mostram que renda e escolaridade dos pais estão associadas a melhor desempenho acadêmico, mas a análise do Enamed indica tendência diferente para medicina: mais de 35% dos alunos privados têm renda familiar acima de seis salários mínimos, contra 19% nas públicas; 36% têm mães com ensino superior, frente a 31% nas públicas. Alunos autodeclarados pretos ou pardos representam 27% nos privados e 37% nas públicas, que têm cotas.
O desempenho inferior reforça problemas de qualidade nos cursos privados. “A variável da escola parece mais determinante e afasta a ideia de que seriam vítimas do perfil socioeconômico dos alunos”, afirma o professor Mario Scheffer, da USP. Cursos com pior avaliação também têm menos docentes com doutorado, mais alunos por professor, são mais novos e estão em cidades menores.
Entre os 39 mil participantes, 24,5 mil eram de cursos privados e 9,8 mil de públicos. O percentual de desempenho adequado foi de 61% nas privadas e 81% nas públicas. Questões com maiores diferenças abordaram temas como insensibilidade androgênica (50,4% acertos nas públicas x 24,4% nas privadas) e conduta médica no luto (72,6% x 55,1%).
O MEC divide os cursos em cinco níveis e pode aplicar sanções às 99 instituições com resultados insuficientes. A divulgação dos resultados levou à suspensão do edital para novos cursos privados de medicina.
A Anup, que representa universidades privadas, considera “prematuro fazer inferências sobre diferenças socioeconômicas” entre estudantes de públicas e privadas, afirmando que o Enamed não mede o ponto de partida dos alunos.




