Feira de Santana

Do rádio ao vinil: a trilha sonora que insiste em não desaparecer em Feira de Santana

Foto: Luiz Santos

Caminhando pelas ruas de Feira Santana, na Bahia, é impossível não notar um pequeno tesouro que desafia o avanço do tempo e da tecnologia. Em meio ao vai e vem cotidiano, discos de vinil, CDs originais e outras raridades musicais chamam a atenção de curiosos e colecionadores. Por trás dessa coleção está Heleno Gomes de Jesus, mais conhecido como Leno, um apaixonado pela música e pela preservação da cultura sonora.

A relação de Leno com a música vem de longe. Ainda no fim da década de 1980, entre 1987 e 1988, ele já dava entrevistas para a televisão local e começava a comercializar seus primeiros vinis, quando ainda existiam lojas especializadas na cidade. Comprava, revendia e, aos poucos, foi construindo um acervo que hoje carrega consigo pelas ruas. Com o fechamento das lojas, a venda ambulante se tornou não apenas uma alternativa, mas uma missão: manter vivo um produto que, para ele, não pode desaparecer.

Foto: Luiz Santos

Para Leno, o vinil é mais do que um objeto. É história, identidade e tradição. Diferente do CD, facilmente pirateado, o disco de vinil carrega uma autenticidade que resiste ao tempo. Assim como o rádio AM, que ele compara ao vinil, trata-se de um formato que atravessou décadas sem perder sua essência. Desde os tempos do rádio mono, nas décadas de 1920 a 1950, a música sempre foi um elemento central da cultura popular, algo que, segundo ele, precisa ser preservado.

Além de vendedor, Leno também é músico e compositor. Já teve canções gravadas por grupos como o Bonfim Tropical e por artistas que chegaram a registrar suas músicas no Rio de Janeiro. Entre um cliente e outro, ele segue compondo, tocando violão e mantendo viva sua ligação com a arte. A rotina de vendas é incerta: há dias em que comercializa vários discos, outros em que apenas conversa com quem passa e deixa o interesse amadurecer. Ainda assim, a persistência faz parte do ofício.

Atento às mudanças de hábito do público, Leno também se adaptou. Além dos vinis e CDs, ele oferece pendrives com coletâneas musicais, atendendo quem prefere ouvir música no carro, em festas ou reuniões com amigos. O catálogo é variado e inclui desde brega e axé até bandas que marcaram época, verdadeiras relíquias difíceis de encontrar. Alguns discos, dependendo do estado de conservação e do artista, podem custar de dez reais a valores que ultrapassam duzentos reais.

O cuidado com o material é essencial. Para Leno, o vinil precisa estar bem conservado. Arranhões profundos comprometem o som e não têm conserto. O charme está no chiado suave, que faz parte da experiência, mas nunca na deterioração do disco. Por isso, mesmo enfrentando sol e chuva, ele protege cuidadosamente sua mercadoria, usando coberturas e sombrinhas para evitar danos.

Entre os clientes está Cláudio Alves, também colecionador e frequentador assíduo do ponto de Leno. Apaixonado por música desde a adolescência, ele construiu sua coleção ao longo dos anos, à medida que as condições financeiras permitiram. Embora hoje colecione apenas CDs, Cláudio não esconde a emoção de ouvir música em formato físico. Para ele, é mais do que entretenimento: é terapia, é cultura, é memória.

Em tempos de streaming e consumo rápido, a cena que se repete nas ruas de Feira de Santana prova que ainda há espaço para o som que se toca, se sente e se guarda. Entre chiados, histórias e afetos, Leno segue firme, mostrando que a música, quando é cultura, nunca sai de moda.

Mayara Nayllanne

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