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Entre manchetes e silêncios: a mídia brasileira tem lado?

Nesta quarta-feira, 13 de maio, publicamos um artigo intitulado “Entre Escândalos e Torcidas Políticas: quem está errado, a política ou os políticos brasileiros?”. Na ocasião, procuramos apresentar uma reflexão crítica sobre a política brasileira atual, sem jamais defender qualquer ruptura democrática ou desrespeito às instituições republicanas.

No texto, defendemos algumas ideias que consideramos importantes. Como exemplo, dissemos que a corrupção não é um problema isolado de uma pessoa ou partido, mas um fenômeno estrutural; que a polarização política fez parte da sociedade adotar critérios seletivos de julgamento moral; e que o próprio sistema político brasileiro cria incentivos que favorecem práticas pouco republicanas.

Também defendemos que parte da população contribui para aprofundar esse cenário ao transformar a política em uma espécie de torcida organizada, onde adversários são vistos como inimigos e aliados são defendidos independentemente de seus erros. Em resumo, repetimos, a crise brasileira parece envolver não apenas governos e partidos, mas também a forma como a política passou a ser vivida e interpretada no país.

AGORA
Ainda nesta quarta-feira, uma notícia passou a circular nas redes sociais e em diversos veículos da comunicação nacional informando que o senador Flávio Bolsonaro teria buscado apoio financeiro junto ao empresário Daniel Vorcaro para um projeto cinematográfico sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem publicada pelo The Intercept Brasil, o valor discutido teria alcançado US$ 24 milhões – quantia que, à época, corresponderia a cerca de R$ 134 milhões.

O conteúdo ganhou ampla repercussão política e econômica, sendo repercutido por diferentes veículos da comunicação nacional. Sem entrar no mérito jurídico ou político da situação, chamou atenção a diferença de abordagem adotada por alguns meios de comunicação ao tratar o mesmo episódio. E é justamente nesse ponto que surge uma discussão antiga e delicada no Brasil: até que ponto a imprensa brasileira consegue manter critérios semelhantes de cobertura diante de atores políticos distintos?

VERSÕES
O Grupo Globo, por meio do Jornal Nacional, apresentou a notícia mencionando tanto as informações divulgadas pelo The Intercept Brasil quanto a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, relacionando a repercussão do caso às reações do mercado financeiro, como oscilações do dólar e da bolsa de valores. Já o Jornal da Band, da Grupo Bandeirantes de Comunicação, adotou um tom mais enfático ao defender que o caso precisaria de explicações públicas mais claras, sobretudo pelo fato de Flávio Bolsonaro ocupar mandato no Senado e ser apontado por analistas políticos como possível nome competitivo para futuras disputas presidenciais.

VISÃO PÚBLICA E CONFIANÇA
É importante destacar que diferenças editoriais entre veículos de comunicação podem não representar, necessariamente, prova de favorecimento político. Empresas jornalísticas possuem estilos próprios de cobertura, linhas editoriais distintas e prioridades diferentes na construção da notícia. Quando parte do público percebe mudanças significativas no tom, na intensidade ou na profundidade da cobertura dependendo do personagem político envolvido, surgem questionamentos sobre equilíbrio e imparcialidade.

Nas redes sociais, o debate rapidamente extrapolou o caso específico. Usuários passaram a relembrar reportagens antigas envolvendo financiamentos culturais e relações institucionais entre o Banco Master e projetos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem como ao ex-presidente Michel Temer.

Cabe esclarecer, no entanto, que tais situações possuem contextos diferentes e não podem ser tratadas automaticamente como equivalentes. O ressurgimento dessas comparações revela um fenômeno importante: a crescente desconfiança de parte da população em relação aos critérios utilizados por determinados setores da imprensa sobre a política brasileira.

Essa percepção não nasceu agora. Ao longo das últimas décadas, diferentes grupos ideológicos fizeram críticas semelhantes aos meios de comunicação, embora em direções opostas. Setores conservadores frequentemente acusam parte da imprensa de maior proximidade com pautas progressistas e governos de esquerda.

Já setores progressistas afirmam que parte da cobertura política contribuiu para desgastar especialmente governos ligados ao PT, vide Operação Lava Jato, que foi interpretada por setores da sociedade e por analistas políticos como um processo que contribuiu para o desgaste da esquerda e para o fortalecimento de setores da direita e da direita mais radical. Em ambos os casos, o elemento central parece ser o mesmo: a perda gradual de confiança pública na neutralidade jornalística.

A (DES)CONFIANÇA DO BRASILEIRO
Hoje, muitos brasileiros parecem não consumir notícias apenas em busca de informação, mas também de confirmação de suas próprias convicções políticas. E nesse ambiente polarizado, veículos de imprensa passaram a ser frequentemente rotulados como “pró-governo”, “anti-governo”, “bolsonaristas”, “lulistas” ou “isentões”.

Isso ajuda a explicar por que diferentes públicos interpretam a mesma notícia de maneiras completamente distintas e, em muitos casos, a discussão deixa de ser apenas sobre os fatos e passa a envolver a credibilidade do próprio veículo que os divulga. No entanto, é fundamental separar críticas legítimas à cobertura jornalística de teorias conspiratórias, uma vez que a imprensa livre exerce papel essencial em qualquer democracia.

Cabe a uma imprensa livre investigar, questionar e cobrar explicações de agentes públicos independentemente de ideologia partidária. Até porque o jornalismo crítico não deve ser visto como perseguição política.

É legítimo que a sociedade questione critérios editoriais ao perceber diferenças relevantes de tratamento entre atores políticos semelhantes. O problema não está necessariamente na existência de críticas, mas na visão de que essas cobranças podem variar conforme o grupo político envolvido.

A mídia brasileira, além disso, não é homogênea. E não deve ser. O país possui empresas concorrentes, linhas editoriais distintas, interesses econômicos variados e abordagens frequentemente conflitantes entre si. E generalizações amplas sobre “a imprensa” tendem a simplificar uma realidade muito mais complexa.

MUDANDO A PERGUNTA
Talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se a mídia brasileira “tem lado”. Em democracias modernas, veículos da comunicação nacional possuem visões de mundo, prioridades editoriais e interpretações próprias dos fatos – algo que acontece em diferentes países e sistemas políticos.

A questão central talvez seja outra: por que cresce, em parte significativa da sociedade brasileira, a sensação de que determinados agentes políticos recebem tratamentos diferentes diante de situações semelhantes?

É preciso dizer, ao final, que quando a confiança pública diminui, não apenas governos e políticos sofrem desgastes. Instituições, imprensa e até o próprio debate democrático acabam sendo afetados. Em outras palavras, numa democracia polarizada, recuperar a credibilidade talvez seja um dos maiores desafios tanto da política quanto da comunicação brasileira contemporânea.

FSA-BA, 14 de maio de 2026.

Por: Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.

Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Mayara Nayllanne

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