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94 anos do voto feminino no Brasil

Em 1955, eleitora vota para presidente da República, no Rio: direito arduamente conquistado Fonte: Agência Senado

Por Emanuele Pilger, mestra em comunicação pela UFRB

Algumas datas não chegam com alarde. Não têm fogos, não viram feriado, não estampam capas. Mas carregam pequenas revoluções que mudam o curso da história. 24 de fevereiro de 1932 é uma delas.

Foi nesse dia que o Brasil instituiu, por meio do Código Eleitoral, o direito ao voto feminino. Não foi um gesto generoso do Estado. Foi resultado de mobilização, de articulação, de mulheres que se recusaram a aceitar que política fosse território exclusivo dos homens.

Até então, o país decidia seus rumos sem ouvir metade da população. O voto feminino não foi apenas um direito jurídico. Foi o reconhecimento de que mulheres pensam, opinam, escolhem. Até então, o poder público era legalmente um feudo masculino. Foi a primeira fresta aberta numa estrutura que insistia em nos manter como espectadoras.

Mas é preciso dizer: o direito veio com limites. O voto era facultativo e restrito às mulheres alfabetizadas. A igualdade não nasceu pronta. Ela começou como possibilidade. Imagino aquelas primeiras eleitoras. O gesto de depositar a cédula na urna talvez parecesse simples. Mas era um ato carregado de simbolismo. Era o início de uma presença política que havia sido negada por séculos.

Noventa e quatro anos depois, muito avançamos. Elegemos vereadoras, deputadas, governadoras, senadoras, uma presidenta. As mulheres ocupam espaços que antes lhes eram proibidos. Mas ainda somos minoria nas assembleias legislativas, ainda temos participação reduzida na Câmara dos Deputados e no Senado. Em um país onde somos maioria da população, seguimos sub-representadas nos centros de decisão.

A democracia brasileira ainda fala majoritariamente em voz masculina quando se trata de poder institucional. E isso importa para todas nós mulheres. Importa porque representação não é detalhe. É perspectiva. É prioridade. É a forma como políticas públicas são pensadas, como a violência é enfrentada, como o cuidado é compreendido, como o trabalho é valorizado. Quando mulheres não estão nas mesas de decisão, parte da realidade fica do lado de fora.

O 24 de fevereiro não é apenas uma lembrança histórica. É um marco que nos convida à reflexão. O voto abriu a porta da cidadania formal. Mas ocupar plenamente os espaços de poder ainda é um processo em construção.

Porque democracia madura não é aquela que apenas permite votar. É aquela que garante representação efetiva, igualdade de condições, respeito e permanência. Noventa e quatro anos depois, o voto foi o começo,  a igualdade ainda é o destino.

Hely Beltrão

Hely Beltrão

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