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O exemplo arrasta

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Por Emanuele Pilger, mestra em Comunicação pela UFRB

Durante o feriado de carnaval, entre uma conversa e outra, sentei para ouvir meu compadre pai dos meus dois afilhados, um menino de sete anos e um adolescente de dezessete. Falávamos sobre a vida, sobre os desafios de educar filhos em um mundo cada vez mais acelerado, quando ele me disse algo que ficou ecoando na minha cabeça.

Ele decidiu parar drasticamente de consumir bebida alcoólica quando o filho mais velho entrou na adolescência. Não foi por recomendação médica, não foi por promessa religiosa. Foi por coerência.

No entendimento dele, não era correto exigir do filho um comportamento que ele próprio não estava disposto a praticar. Não fazia sentido orientar sobre os riscos do álcool e, ao mesmo tempo, consumir bebida diante dele, em casa ou entre amigos, naturalizando aquilo que, mais cedo ou mais tarde, poderia se tornar um estímulo. “Porque o exemplo arrasta”, ele me disse.

Vivemos tempos em que jovens se embriagam nas festas até perderem a consciência. Em que acidentes de trânsito têm como pano de fundo a imprudência misturada ao álcool. Em que famílias choram perdas que poderiam ter sido evitadas.

E, inevitavelmente, quando alguém assume uma postura mais firme, logo surgem os rótulos: conservador. Careta. Militante de direita. Extremista. Religioso demais.

Mas será que tudo precisa virar rótulo?

Há decisões que não têm nada a ver com ideologia. Têm a ver com responsabilidade. Com moral. Com aquilo que aprendemos ou deveríamos aprender dentro de casa. Se você não quer que seu filho consuma bebida alcoólica, o exemplo começa na sua mesa. Se você quer que ele seja leitor, o livro precisa estar aberto também nas suas mãos. Se você deseja que ele respeite as pessoas, o respeito precisa ser prática cotidiana dentro do seu lar.

Eu penso nisso como mãe. Penso nisso como filha.

Fui criada sem luxo, com muitas restrições, mas com uma educação basilar firme, clara, caprichada. Valores que ajudaram a formar a minha personalidade e a minha noção de mundo. Não era sobre dinheiro. Era sobre referência.

Hoje, vemos jovens sendo cooptados pelo tráfico, adolescentes sequestrados dentro das próprias casas inclusive aqui, em Feira de Santana, e depois encontrados mortos, com sinais de violência que nos chocam e nos paralisam.

É claro que a responsabilidade não é apenas da família. A sociedade é complexa. O Estado tem seu papel. As políticas públicas são fundamentais.

Mas a primeira escola continua sendo a casa, aquilo que sonhamos de melhor para os nossos filhos começa no nosso próprio comportamento. Não é discurso. É prática. Não é militância. É coerência. No fim das contas, antes de qualquer ideologia, antes de qualquer bandeira, existe uma verdade simples e antiga:

O exemplo arrasta.

Hely Beltrão

Hely Beltrão

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