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O Nordeste saiu gigante das eleições de 2026

Por Carlos Alberto e Pedro Torres Filho

Hely Beltrão
Por: Hely Beltrão Fonte: Conectado News
07/11/2026 às 09h16
O Nordeste saiu gigante das eleições de 2026
Mapa

O resultado das eleições presidenciais de 2026 deixou uma mensagem que merece ser observada para além dos números das urnas: o Nordeste saiu gigante desse processo eleitoral. E não foi apenas pela expressiva votação no primeiro turno, que ajudou a garantir a presença de Lula na disputa decisiva. Foi, sobretudo, pela participação fundamental da região na virada que assegurou sua vitória no segundo turno.

É claro que essa conquista não pode ser atribuída a uma única região. Estados do Norte, especialmente Pará e Amazonas, além de Minas Gerais, no Sudeste, também tiveram participação importante nesse resultado. Afinal, uma eleição nacional é construída pela soma de diferentes forças, realidades e escolhas políticas. Mas seria injusto não reconhecer o protagonismo nordestino nessa história.

O GIGANTE NORDESTE
No segundo turno, os nove estados nordestinos deram maioria a Lula. Foram aproximadamente 24,45 milhões de votos, o equivalente a 69,37% dos votos válidos da região. Um resultado expressivo, que reafirma a força eleitoral do Nordeste e sua importância nos grandes momentos da política brasileira.

Mas o Nordeste não é gigante apenas nas urnas. Sua história também é feita de lutas, resistência e enfrentamentos. Desde os movimentos de resistência às invasões holandesas e francesas, passando pelos conflitos contra o domínio colonial português, até as lutas pela independência do Brasil, a região esteve presente em momentos decisivos da formação do nosso país.

POVO DE LUTA
A Independência da Bahia, consolidada em 2 de julho de 1823, é um dos exemplos mais marcantes dessa trajetória. Uma história construída por homens e mulheres que não aceitaram permanecer sob o domínio português e enfrentaram forças muito superiores na luta pela liberdade.

Guardadas as devidas proporções históricas, as eleições de outubro de 2026 também podem ser compreendidas como mais um capítulo dessa tradição de participação e resistência popular. Não se trata de comparar uma batalha pela independência com uma disputa nas urnas, mas de reconhecer que a história nordestina é marcada pela presença de um povo que participa, se posiciona e faz valer sua voz.

Em um cenário internacional marcado pelo crescimento de forças conservadoras e da extrema direita, com lideranças e projetos políticos que apresentam pontos de convergência, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina, a eleição brasileira ganhou uma dimensão que ultrapassou nossas fronteiras. Estava em discussão não apenas a escolha de um presidente, mas também diferentes projetos de país, o papel das instituições e os rumos da democracia brasileira.

Nesse contexto, a votação nordestina teve um significado especial. Mostrou que o eleitorado da região tem identidade política, capacidade de avaliação e autonomia para fazer suas próprias escolhas. O nordestino não precisa que ninguém pense ou decida por ele. Sabe avaliar, comparar e escolher de acordo com suas convicções, como qualquer outro cidadão brasileiro.

DISCRIMINAÇÃO
Outro aspecto que não pode passar despercebido foi a resposta dos nordestinos aos ataques xenofóbicos, racistas e preconceituosos que marcaram o debate eleitoral. Durante a campanha, não faltaram manifestações de desprezo contra nós, nordestinos. Até mapas depreciativos foram utilizados para ridicularizar a região e seus eleitores.

Infelizmente, esse tipo de preconceito não é novidade. Ao longo da história, nós, nordestinos, tivemos de conviver com estereótipos que tentam associar nossa origem à pobreza, à falta de instrução e até à incapacidade de fazer escolhas conscientes. É uma visão ultrapassada, injusta e preconceituosa, que ignora a riqueza cultural, a capacidade de trabalho e a contribuição do Nordeste para o desenvolvimento do Brasil.

O que muitos parecem esquecer é que o Nordeste não é um problema para o país. É parte fundamental da sua história, da sua economia, da sua cultura e da sua identidade. Somos brasileiros como quaisquer outros, com os mesmos direitos, deveres e liberdade para decidir os destinos da nação.

IMAGENS E CORES
A resposta também veio das urnas e ganhou forma nas imagens exibidas pelas emissoras de televisão. Os mapas eleitorais mostraram a expressiva votação de Lula no Nordeste e em outros estados brasileiros. Em determinadas representações, os desenhos lembravam o contorno do Brasil e até da América do Sul. Imagens que ganharam força simbólica e ajudaram a traduzir a dimensão daquele resultado.

O vermelho que apareceu nesses mapas pode ser interpretado como o vermelho da liberdade, da paz e da democracia. Mas também como a representação de um povo que carrega uma história de resistência e que não foge à luta quando acredita que seus direitos e suas conquistas estão em jogo.

É importante lembrar, porém, que o Nordeste não pensa de uma única maneira. São mais de 50 milhões de habitantes, com diferentes opiniões, partidos, ideologias e posições políticas. Há nordestinos que votaram em Lula, outros escolheram seus adversários e muitos possuem visões diferentes sobre os rumos do país. Isso faz parte da democracia e precisa ser respeitado.

O que não se pode aceitar é que alguém seja discriminado, ridicularizado ou tratado como inferior por causa do lugar onde nasceu ou da região em que vive. A liberdade de escolha é um direito de todos, e o respeito precisa estar acima das divergências políticas.

O resultado de 2026 deixa uma lição importante: o Brasil não pode ser compreendido a partir de uma única região, de um único pensamento ou de uma única realidade social. A riqueza do país está justamente na diversidade do seu povo e na possibilidade de cada cidadão participar das decisões que definem os destinos desta imensa nação.

O Nordeste saiu gigante das eleições, é verdade. Mas não caminhou sozinho. Levou consigo milhões de brasileiros e brasileiras de diferentes regiões que também participaram da construção desse resultado. Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes deixadas pelas urnas: a democracia se fortalece quando diferentes povos, culturas e realidades têm voz e participam das decisões nacionais.

TÁ ESCRITO
No final das contas, o Nordeste não precisa pedir licença para ocupar seu lugar na história do Brasil. Esse lugar foi conquistado com luta, resistência, trabalho e participação popular. Ao lado de outros estados e de milhões de brasileiros, a região escreveu, em outubro de 2026, mais um capítulo de sua trajetória na construção da democracia brasileira.

FSA-BA, 08 de novembro de 2026.

*Carlos Alberto* 
Professor, radialista e mestre de cerimônias 

*Pedro Torres Filho*
Engenheiro Agrônomo

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