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Segurança pública para quem? O discurso de Flávio Bolsonaro e os desafios do combate ao crime

As preocupações das duas campanhas têm fundamento, ainda que apresentem caminhos diferentes

Por: Mayara Nayllanne
22/10/2026 às 09h58
Segurança pública para quem? O discurso de Flávio Bolsonaro e os desafios do combate ao crime
Foto: Divulgação

A reta final da campanha presidencial de 2026 tem intensificado o debate sobre segurança pública no Brasil. De um lado, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfatiza a integração das instituições, o uso da inteligência, a investigação financeira e a prevenção da violência. De outro, Flávio Bolsonaro (PL) dá destaque ao endurecimento das penas, à ampliação do sistema prisional e ao combate mais rigoroso às facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

As preocupações das duas campanhas têm fundamento, ainda que apresentem caminhos diferentes. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 830.890 roubos e furtos de celulares em 2025, uma média de aproximadamente 2.276 aparelhos por dia. Apesar da redução de 9% em relação ao ano anterior, os números revelam a dimensão do problema. Para as vítimas, perder o celular significa muito mais do que ficar sem o aparelho: significa correr o risco de perder documentos, contatos, dados pessoais e até dinheiro.

O combate à criminalidade, entretanto, não termina nas ruas nem se resume ao aumento das penas para quem pratica roubos e furtos. É preciso investigar também as estruturas financeiras que movimentam recursos ilícitos, financiam organizações criminosas e permitem que o dinheiro obtido ilegalmente circule na economia formal.

Um exemplo é a operação Fluxo Oculto, que colocou em evidência a complexidade dessas investigações no centro financeiro de São Paulo, especialmente na região da Faria Lima. Em maio de 2026, seis fintechs investigadas foram associadas a movimentações financeiras atípicas que, segundo a Receita Federal, somaram R$ 26 bilhões em quatro anos, em investigações de suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado. É importante esclarecer que o valor corresponde às movimentações identificadas, sem que isso signifique que toda a quantia tenha origem criminosa.

O caso mostra que o crime pode atuar tanto nas ruas quanto por meio de operações financeiras sofisticadas. Investigar essas estruturas exige trabalho técnico, cooperação entre instituições e capacidade de rastrear recursos. Em nossa opinião, quando as irregularidades são comprovadas, os responsáveis devem responder perante a Justiça, independentemente de sua condição econômica ou influência política.

É nesse contexto que cabe uma pergunta ao candidato Flávio Bolsonaro: por que, durante a campanha, seu discurso público sobre segurança tem dado tanto destaque ao endurecimento das penas para ladrões de celulares, com a promessa de pelo menos oito anos de prisão, enquanto o combate aos crimes financeiros e à lavagem de dinheiro recebe menos espaço em suas declarações? A pergunta não ignora que o plano de governo do candidato também prevê medidas para sufocar financeiramente as organizações criminosas e combater a lavagem de dinheiro. O que se pretende compreender é a diferença entre o que está previsto no programa e aquilo que ganha maior visibilidade nos discursos de campanha. 

Além do que, o candidato Flávio Bolsonaro tem defendido com muita frequência a punição de oito anos de prisão para ladrões de celular, mas é importante registrar que a Lei nº 15.397/2026, sancionada em maio deste ano, já majorou as penas para roubo de celular, com reclusão, "de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa". Por isso, cabe acrescentar outras perguntas ao candidato do PL: Como essas medidas serão colocadas em prática? Que prioridades terão? E como o candidato pretende garantir que as investigações alcancem todos os envolvidos, inclusive aqueles que operam nos setores mais sofisticados da economia? 

Afinal, o endurecimento penal, por si só, não resolve todas as dimensões da criminalidade. A segurança pública também depende de prevenção, inteligência policial, investigação, recuperação de recursos ilícitos e fortalecimento das instituições. O cidadão que tem o celular roubado merece proteção e respostas efetivas do Estado, sem dúvida. Da mesma forma que a sociedade precisa de mecanismos capazes de identificar e desarticular as estruturas que financiam e lucram com o crime organizado.

O desafio do candidato, portanto, que tem dado muita ênfase no sentido de punição para ladrão de celular — o que encontra acordo — é, também, mostrar como pretende combater as diferentes faces da criminalidade. Porque a segurança pública só será efetiva quando estiverem protegidos aqueles que vivem com medo da violência nas ruas e, de igual modo, quando a Justiça também alcançar aqueles que, por dinheiro ou influência, acreditam estar distantes do alcance da lei. Melhor dizendo: Segurança Pública pra quem?

FSA-BA, 22/10/2026

Por Carlos Alberto — professor, radialista e mestre de cerimônias

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