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Conectado com a Eleição: debate reúne posições opostas sobre o segundo turno presidencial

Os convidados defenderam seus argumentos no programa Levante a Voz, com apresentação do jornalista Luiz Santos, na Rádio Sociedade News.

Por: Redação
12/10/2026 às 18h04
Conectado com a Eleição: debate reúne posições opostas sobre o segundo turno presidencial
Foto: Reprodução
Carlos Medeiros, que disputou as últimas eleições para deputado federal, defendeu a alternância de poder e declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Já Valter Zaqueu, doutorando em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professor em Feira de Santana, apresentou argumentos favoráveis à continuidade de políticas públicas e à reeleição do presidente Lula, durante debate que aconteceu no sábado (11), no programa Levante a Voz, com apresentação do jornalista Luiz Santos, na Rádio Sociedade News.
 
Carlos Medeiros afirmou que considera necessário mudar a orientação política do país. O empresário defendeu um governo liberal, com redução de impostos e incentivo ao empreendedorismo.
 
"Luiz, eu vejo que todo poder tem que ter uma mudança e aqui chegou a hora. Eu acho que o PT está no poder há bastante tempo e é hora de você ter realmente uma transição. Eu acho que deu o que tinha que dar, aí você tem que trazer uma oportunidade para uma linha de pensamento diferente. Eu defendo o governo liberal, eu defendo um governo onde a população tenha mais liberdade para poder empreender, para fazer, onde a gente tem realmente uma redução de impostos. Eu costumo falar muito com as pessoas, tem gente que tem antipatia pelo Bolsonaro, por um, por outro candidato, e eu falo, olha, a gente não está escolhendo uma pessoa para ir para a nossa casa comer feijoada, beber uma cerveja, estamos escolhendo um projeto para o país. E na hora que você olha isso, você tem que olhar todo o contexto. Então você vai ver o que é que realmente importa nesse momento, quais são as ideias, quais são os projetos, o que é que a gente vai... O Brasil vive uma crise no momento".
 
"Eu sou conselheiro da Abrasel, 70% dos restaurantes, cara, trabalham no prejuízo. Você vai em 300 metros, ali, se você quiser dar uma volta no comércio, você vê 10, 15, 20 empresas de porta fechada. Então, a gente chegou num momento que tem que ter uma renovação. Você tem um mercado hoje, uma política hoje que interfere em tudo. Você tem um Judiciário que virou totalmente político. Então, é necessário, nesse momento agora, a gente dar um basta, dar uma mudança de área no Brasil, trazer realmente a população novamente para empreender. As famílias estão extremamente endividadas, 80% das famílias estão endividadas, o cara já estourou o cartão de crédito dele, da esposa, da vizinha, da mãe, e chega a hora em que a gente precisa ter uma grande mudança e chegou a hora. Acho que o projeto da esquerda já deu o que tinha que dar, acho que o atual presidente da República já está senil, inclusive, então a gente precisa fazer essa mudança".
 
Valter Zaqueu questionou a ideia de que o tempo de permanência do PT no governo seja suficiente para explicar os problemas estruturais do Brasil.
 
"Primeiro, eu vou acordar com o candidato. O brasileiro e a brasileira, ninguém, de fato, quer sentir dificuldade, pagar muitos impostos. O Brasil é um dos países que tem a maior carga tributária do mundo. Isso, com certeza, incide sobre a população mais pobre. Mas, dialogando com o argumento dele de que o PT já está há muito tempo no poder, antes do PT chegar ao poder, vários partidos de direita que representavam a direita estiveram no poder. O Brasil tem mais de 500 anos e o governo do PT é o primeiro governo que se declara, que se coloca no centro e na esquerda em 20 anos. Como é que a gente, se for dialogar com esse argumento de 20 anos de governo, vai conseguir resolver mais de 500 anos de problemas causados pelos candidatos que se colocam como candidatos de direita? Será que o ouvinte em casa pensa que vai conseguir resolver 500 anos de problema em 20? Não é possível. Segundo, vamos humanizar o PT no sentido de colocar que a gente precisa de tempo, precisa de apoio e só o presidente eleito não vai conseguir, diante de toda a estrutura política organizativa, ter o presidente de um partido, mas a gente tem toda uma bancada que é de outro partido".
 
Zaqueu também questionou que as dificuldades enfrentadas pelo governo federal dependem da relação com o Congresso Nacional e da atuação dos demais agentes políticos, que, segundo ele, votam contra os interesses do povo.
 
"E vamos ser honestos aqui no nosso país, a gente sabe que em muitos momentos vários políticos, várias candidatas e candidatos, várias pessoas que estão eleitas lá no Senado, na Câmara dos Deputados, votam contra o interesse da população somente para não permitir que um presidente de uma agenda diferente consiga avançar com um projeto que, se bem sucedido, melhoraria a sua popularidade dentro da população. Esse é um ponto. O segundo ponto é que a gente tem uma realidade no Brasil que, se por um lado, os grupos empresariais apontam que têm tido dificuldade, que estão com problemas financeiros, por outro lado, a população mais pobre, o pessoal que tem que trabalhar de CLT, o pessoal que tem que trabalhar todos os dias, também precisa de suporte, também precisa de ajuda, uma vez que toda a sociedade brasileira está organizada no sentido muito mais de favorecer os grupos empresariais do que os trabalhadores e trabalhadoras".
 
Carlos Medeiros falou sobre o projeto de Flávio para a população menos favorecida. Medeiros afirmou que não é contrário ao programa Bolsa Família, mas defendeu medidas que ampliem as oportunidades de saída da situação de pobreza.
 
"O primeiro ponto é assim, que tudo que a gente diz a respeito da parte social, que hoje tem no Brasil, que foi uma conquista do trabalhador, não existe nenhum projeto para você mudar isso. Então eu tive a tranquilidade de ler o programa de governo do candidato Flávio, até porque no primeiro turno ele não era meu candidato. Então no segundo turno agora eu fui buscar e não tem nada que venha mudar a parte social. Claro que aqui vai ter um grande impacto na população. É exatamente, você vai ter um país onde volta a empreender, onde a gente dá valor realmente a quem produz. E aí é o trabalhador, é o empregador, todo mundo junto. Essa cultura assim, o governo infelizmente do PT, vem ao longo dos anos separando as pessoas, separando as classes. É o preto contra o branco, a mulher contra o homem, é o patrão contra o empregado".
 
Medeiros afirmou que não é contrário ao programa Bolsa Família, mas defendeu medidas que ampliem as oportunidades de saída da situação de pobreza.
 
"Na hora que a gente fala de você ter um trabalho por hora trabalhada também, mais uma opção para o trabalhador sem perder a garantia que ele tem, a opção dele é trabalhar pela CLT. Mas você tem vários segmentos que hoje precisam ter um trabalho mais flexível, porque há necessidade. Se você perguntar hoje para o motorista de aplicativo, mesmo tendo muita melhoria para ser feita no segmento, mas ele não quer sair para a CLT. Então, a gente precisa entender que o mercado de trabalho mudou. E essa visão, infelizmente, o governo atual não tem. A gente precisa realmente de uma nova visão, que eu vejo que o Flávio Bolsonaro e sua equipe têm".
 
A discussão também abordou a flexibilização das relações de trabalho. Medeiros defendeu a criação de alternativas para trabalhadores que buscam maior flexibilidade, a exemplo dos motoristas por aplicativo, e afirmou que o mercado de trabalho passou por transformações que precisam ser consideradas pelo poder público.
 
Zaqueu destacou a importância das políticas sociais para reduzir a pobreza e ampliar o acesso a serviços públicos. O professor citou avanços nas áreas de educação, saúde, saneamento e acesso à universidade, atribuindo parte dessas mudanças às políticas implementadas por governos petistas.
 
"O primeiro ponto que eu quero colocar é que o candidato terminou a fala dizendo que o pessoal que trabalha como motorista de aplicativo não quer trabalhar com CLT. Nós temos a CLT como uma conquista dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, da população que tem que dar duro, de 1943. E aí, nessa regulamentação da Consolidação das Leis do Trabalho, Feira de Santana aderiu a esse modelo, que é o modelo que a gente chama de semana inglesa, que é essa coisa de você levantar, pegar segunda às oito da manhã e só largar sábado ao meio-dia e algumas pessoas só depois, em 1952. De lá para cá, nós não tivemos nenhuma atualização significativa na carga horária de trabalho, nos direitos trabalhistas. As pessoas não querem ir para a CLT porque, apesar da CLT dar garantias trabalhistas, garantir que você tenha décimo terceiro, licença-maternidade e outros direitos que são necessários para dar o mínimo de estabilidade, existe a possibilidade de você, trabalhando por conta própria, uma vez que muitos trabalhadores e trabalhadoras, quando procuram emprego, recebem a porta na cara, não porque não têm qualificação, mas porque existem outros elementos".
 
O professor afirmou ainda que fatores como preconceito, racismo, homofobia e machismo podem interferir nas oportunidades de inserção no mercado de trabalho.
 
"E quem está procurando emprego sabe que você está aí preparado e preparada, já colocou vários currículos e o pessoal não te contratou. O que é que está acontecendo? A gente sabe que tem outros elementos que não são só a qualificação e que muitas vezes a gente percebe que não há uma tentativa por parte do PL, por parte do governo de Flávio Bolsonaro, para dirimir esses elementos que são o preconceito, o racismo, a homofobia, o machismo, que retira a população do mercado de trabalho. Em muitos momentos, a gente vê falar que vai melhorar a vida do trabalhador, dos grupos empresariais, que muitas empresas estão fechando etc. Mas quando a gente pensa na necessidade básica de você, trabalhador e trabalhadora que está em casa, que está aí com seus filhos, passando dificuldade, que está com a mão na cabeça, que tem que dar um corre, como a gente fala no popular, para poder fazer um bico e trazer um dinheiro para dentro de casa, a gente percebe que você fica abandonado".
 
Carlos Medeiros reconheceu o que o PT fez de bom e que deve ter continuidade, mas criticou a aplicação dos programas sociais.
 
"Eu não reclamo, por exemplo, do Bolsa Família. Eu tenho uma grande preocupação com o Bolsa Família porque você tem hoje 34% da base do Bolsa Família que já tem mais de 10 anos no programa. Então, a grande tristeza que eu vejo dessa forma com que o governo lida com os problemas sociais é a falta de preocupação em tirar a pessoa dessa situação. As pessoas estão felizes porque nós temos mais Bolsa Família na Bahia e no Nordeste do que emprego formal. A gente não deveria estar feliz com isso. É lógico que a gente dá um suporte para quem precisa naquele momento, para ela poder não passar uma necessidade, ela ter um mínimo de dignidade. É uma coisa boa, acho que ninguém é contra. Mas você ter pessoas que estão há 10 anos, o que você está fazendo? O que você pensa para essas pessoas saírem? Qual a oportunidade? O professor falou, ah, que o mercado às vezes isso, aquilo, não é só a qualificação. Então, a iniciativa privada é que mais defende a meritocracia. Quando você vai para a iniciativa privada, e eu estou falando de pequenas empresas, médias, grandes, todas elas, o que prevalece lá, você pode ter alguma exceção, mas é a meritocracia, onde você vê aí o QI, de quem indicou e tudo, é exatamente nas funções públicas".
 
O professor Valter Zaqueu respondeu sobre o que o filho de Jair Bolsonaro poderá dar continuidade ou o que a direita poderá dar continuidade e melhorar ainda mais a vida da população.
 
"Com muita honestidade, eu entendo que o que o Bolsonaro fez de bom foi lidar com, para mim, a indústria da multa que, de certa forma, incide muito sobre os motoristas por aí. Por um tempo, antes de me tornar professor, sou professor da rede municipal aqui de Feira de Santana, eu trabalhei como motorista por aplicativo. E quando trabalhei como motorista por aplicativo, eu estive no trânsito todos os dias, subindo e descendo, vendo a realidade da cidade, entrando nos bairros, descobrindo locais que quando você não está como motorista de aplicativo, você não vê que existem Feiras de Santana. Então você vê diversas contradições que podem ampliar a sua visão do que é essa cidade, de como ela funciona e de como isso incide sobre a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Então o trânsito é uma coisa que é importante para a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Porém, eu também vi nesse processo várias lojas fecharem no centro da cidade, de fato, como o Carlos Medeiros colocou aqui para a gente. Mas nem todas essas lojas fecharam necessariamente por causa da gestão do governo do PT. A gente tem aí o crescimento do comércio digital. Durante a pandemia, a população foi obrigada a adentrar no comércio digital, mas muita gente também encontrou oportunidade".
 
Zaqueu ressaltou que muitos outros aspectos influenciam o movimento das empresas, inclusive fatores de raça e classe.
 
"O comércio digital, para a pessoa que se coloca no local de comprador e compradora, você está em casa, você precisa de um objeto, você faz o pedido pelo celular e aquele objeto pode chegar até mesmo no mesmo dia, se você comprar, por exemplo, em alguns, não vou mencionar, para não fazer propaganda, mas chega até no mesmo dia. Isso, com certeza, é um elemento que pode incidir sobre a loja física. Se a gente pensar, então, num trânsito que dificulta a movimentação das pessoas no espaço da cidade, isso também vai fazer com que essas lojas sofram com isso. E eu não vi no programa de campanha algum elemento para poder dirimir essas diferenças. Mas eu quero dialogar também com a fala do candidato Carlos, quando a gente pensa que as pessoas podem estar felizes com a pobreza. É que a gente tem que lembrar de como era a vida antes do PT começar a atuar no sentido de nos dar suporte com políticas públicas para dirimir essa pobreza".
 
Os participantes também discutiram a participação de candidatos jovens e o uso da internet nas campanhas eleitorais.
 
Sobre a eleição de nomes muito jovens com votação expressiva e sobre a polarização entre nordestinos e sudestinos, Valter disse:
 
"É importante que a população brasileira, como um todo, e a nossa população aqui na região Nordeste, na Bahia, em Feira de Santana, faça o exercício de rememorar como era a vida, principalmente os mais velhos e as mais velhas, antes das políticas públicas de governo que o governo do PT trouxe aqui para a Bahia. A gente tinha dificuldade de ter acesso à luz, à água, ao saneamento básico, à unidade de saúde, à educação e ao acesso à universidade. Eu sou produto, resultado das políticas públicas de estímulo ao acesso à universidade, que fez toda a diferença na minha família, porque mesmo que você não tenha o retorno financeiro esperado, o conhecimento que você adquire faz diferença no seu viver. Você aprende o que é bactéria, o que é vírus, como comer corretamente, você aprende a educação financeira e sem acesso a boa educação você não consegue fazer esse desenvolvimento".
 
"Porque muitas vezes, mesmo quando você tem dinheiro em mãos, mas você não tem uma estratégia bem organizada para aplicar esse dinheiro, o dinheiro vai se esvair e a família não vai produzir esse desenvolvimento. E essa memória é necessária quando a gente pensa nos novos e nas novas candidatas, pessoas, gente jovem que está chegando no poder Legislativo, que está chegando para deputado, para senador e vai atuar. É importante que essas pessoas busquem rememorar, é importante que a população brasileira busque construir memória de qual é a sua trajetória. Eu sou um homem negro e vivo a experiência de ser um homem negro no Brasil porque este país tem uma memória. Uma memória de escravização, depois a memória do voto de cabresto, depois a memória dos coronéis, depois a memória dos grandes mandadores da política brasileira. E ao mesmo tempo que a gente tem essa coisa de furar a bolha e novas pessoas, pessoas que a gente chama de outsider".
 
Para o empresário, a principal divergência entre os campos políticos está na maneira como as políticas sociais são conduzidas e na capacidade de estimular a autonomia econômica da população.
 
Sobre o que esperar dos jovens eleitos que tiveram como principal plataforma a internet, Carlos Medeiros disse:
 
"Todo mundo quer ser pai e quer ser mãe daquilo que deu certo, né? Aquilo que não deu certo, aí ninguém quer ser o pai e a mãe. Quando você fala dos ganhos sociais, quando você fala do Pix, por exemplo, todo mundo quer ser pai do Pix, né? Que o Pix é um grande sucesso. E você olhar como essas coisas funcionaram, elas começaram às vezes num governo e terminam no outro. Por exemplo, o programa social mesmo começou desde Fernando Henrique. O PT depois entrou, aprimorou, depois veio o Bolsonaro, que saiu de 200, 180 para 600 por causa da pandemia e ali ficou e tal. Então, a mesma coisa o Pix. O Pix não foi criado pelo Bolsonaro. Então, houve uma série de trabalhos em vários governos, até no governo Bolsonaro foi onde teve o maior avanço e acabou sendo aprovado".
 
"Então, os programas sociais, eu acho que eles têm uma importância de relevância para qualquer espectro hoje, seja de esquerda, de direita, qualquer um, eu acho que existe hoje já um grande consenso em relação a isso. Eu acho que a grande divergência é a forma com que a gente lida com esses programas sociais, é a forma cultural, é o incentivo. Então, quando eu falo que a gente está colocando a população para se acostumar com a pobreza, isso não é contra o programa social, isso é contra a cultura da gente estar se acostumando com aquilo que não nos leva a evoluir. A gente precisa levar as pessoas para... Assim como o professor Valter evoluiu na sua vida, eu acho que todo mundo tem que ter na cabeça que todas as pessoas evoluem, independente do que for".
 
O professor Valter falou sobre a possibilidade do presidente Lula sair vitorioso, já que o resultado do primeiro turno foi favorável a Flávio Bolsonaro.
 
"Com certeza, possível com certeza. Agora é necessário trabalhar e é necessário que a população como um todo reconheça que o projeto do PT para o Brasil é um projeto que visa nos ajudar a arrumar para o bem viver, para uma melhor condição de vida, para uma vida mais tranquila, para combustível mais barato, para comida mais barata, para energia, luz, água mais barata, para a gente ter possibilidade de viver. Só que para isso também acontecer, é necessário que a gente tenha em mente o seguinte, a população como um todo, principalmente aqui no Nordeste, a gente pode ver que o Brasil se polarizou, né, de um lado. A região Nordeste, como um todo, votou no PT como maioria, como um todo não, mas em sua maioria o PT venceu aqui no Nordeste, enquanto no Sudeste quem venceu foi o candidato Flávio Bolsonaro".
 
"Se a gente pensar que o Brasil viveu uma coisa que foi a política do café com leite. E nesse período da política do café com leite, o governo brasileiro ficava restrito entre um candidato de Minas Gerais e um candidato de São Paulo. E o problema principal não era a origem dessas pessoas, de onde elas nasceram, mas sim como geriam o país durante esse período. Várias regiões do país ficaram sem receber investimento, principalmente aqui, a nossa região Nordeste. Tanto que a região Nordeste, o Norte e o Sul do país se organizaram para poder acabar com essa política do café com leite e a gente tem aí algo que se chama de Revolução Constitucionalista. Não por acaso, nesse momento, pode ser coincidência ou não, nós temos novamente isso acontecendo. A gente tem um candidato do Sul, do Sudeste, que venceu lá no Sul, no Sudeste, e é mais bem visto lá no Sul e Sudeste. E, do outro lado, um candidato que nasceu no Nordeste. E nós, no Nordeste, precisamos nos lembrar que as necessidades que o Nordeste tem em relação ao Sudeste são diferentes".
 
Já Carlos Medeiros ressaltou que percorreu vários municípios baianos e viu pessoas passando fome.
 
"Luiz, eu vejo o seguinte, se você pegar a distribuição de renda hoje, a grande parte dos impostos são federais. Eles repassam para os programas no estado, no município, principalmente nos municípios. E hoje, quando você pega os estados que mais arrecadam, eles recebem muito menos do que arrecadam. Exatamente pela distribuição dessa renda que há muito tempo já vem para o Nordeste. E é muito bom falar do exemplo do Sul e do Sudeste. Eu te falo que eu trabalhei mais de 20 anos na Ambev, eu vendia cerveja. E cerveja quem bebe é pobre, né? Rico bebe uísque, champanhe, vinhos e tal. E eu conheci o Nordeste, o Brasil inteiro, a periferia. Não foi por turismo, foi trabalhando. E o que você olha lá é uma grande evolução que teve. Então, em termos de educação, de saúde, de segurança, a gente tem que olhar esses exemplos que têm lá e trazer para cá. Mas o exemplo que tem lá, por exemplo, nós temos muito menos Bolsa Família do que pessoas trabalhando de maneira formal. Então, a gente precisa entender que o caminho é a produtividade. O caminho não é só investimento. O investimento hoje, proporcionalmente, é muito maior no Nordeste, pelo que ele produz, do que em relação ao Sul e Sudeste".
 
Ele falou também sobre a proposta de aumentar o valor do Bolsa Família, mas reduzir os beneficiários.
 
"Eu acho que o Bolsa Família, por exemplo, devia ser R$ 1.600,00, devia ser um salário mínimo, mas deveria ser para quem realmente não pode trabalhar. Então, é essa cultura que vai levar o Nordeste a melhorar. Se a gente não tiver isso, se a gente não mudar esse pensamento, a gente vai continuar achando que o Sul e o Sudeste têm alguma coisa muito melhor que a gente, que não tem, a não ser os políticos. De lá, hoje, é menos corrupto, é melhor que o nosso. Deixa eu meter outra pergunta logo aqui. Que os políticos do Sul e Sudeste são menos corruptos do que os nossos aqui do Nordeste? Se você olhar essa política do coronelismo, do cabresto, é muito mais presente aqui do que lá. Hoje o nordestino está muito mais preso, muito mais amarrado. Então, o que a gente precisa ter no Nordeste é a população com essa independência, porque ela pode votar em quem ela quiser, da maneira que ela quiser, ela pode cobrar muito mais dos seus políticos".
 
O professor rebateu e destacou que no Nordeste a maioria dos municípios são governados pela direita. Além disso, falou sobre os avanços que o PT promoveu na região.
 
"A esquerda tem, isso aqui não é novidade para ninguém, nós temos um desafio à frente, o campo do PT tem um desafio à frente que é uma nova representatividade, uma vez que o velho está velho. E o PT não se aproximou, não dialogou com a internet da mesma forma que a maioria dos candidatos de direita, até porque são pessoas mais jovens e eu acho que tem uma questão geracional. Mas aí eu queria colocar um elemento aqui importante que a gente traz muito do que o problema do Nordeste está ou não no governo federal, mas a gente precisa ver que o presidente e o governador até são do PT, mas a maioria esmagadora dos prefeitos aqui no Nordeste não são. Aqui na nossa cidade, na nossa região, a gente só tem, se não me engano, Santo Estêvão, o prefeito que não é vinculado à direita, os demais são prefeitos de direita. Antônio Cardoso, que é um quilombo para todos. Os demais são prefeitos de direita. Então, se for usar essa lógica, o problema da violência e empresas fechando, Feira de Santana está na responsabilidade da direita. Se a gente for observar, a maioria das prefeituras no Nordeste está na responsabilidade da direita. Se eu fosse administrador de uma empresa e eu tivesse uma pessoa administrando minha empresa há oito anos ou doze e essa empresa não tivesse dado resultado em nível local, eu trocaria o administrador".
 
"Por que o prefeito de direita nesse caso não tem responsabilidade? Um outro elemento, a gente falou aqui de qualidade técnica e o Carlos falou. Primeiro ele disse que a Bahia do Nordeste não cresce porque a gente não trabalha. Depois ele mesmo disse, não, a gente é mais trabalhador do que eles. Eu concordo e é histórico. A população da Bahia trabalhou muito mais que a população do Sudeste por muito tempo. Houve essa transferência de recursos do Nordeste para o Sudeste, mas foi também o PT que ampliou o acesso à universidade pública, criou o campus da Uneb, ampliou o campus, criou o FSB, criou várias universidades e trouxe os institutos federais baianos para cá para formar a população em mão de obra de qualidade".
 
Por fim, questionado sobre a polarização e a forma como estamos vivendo, com o caso de Ana Elisa, que estaria sofrendo até ameaça de morte, Medeiros respondeu:
 
"E quando a gente vem para a questão da Elisa, eu acho assim, Luiz, as pessoas, seja o caso dela, mas como vários outros casos que a gente tem no Brasil de pessoas de direita também, muitas vezes as pessoas colhem aquilo que plantam. Não que eu concorde com isso, não que a violência resolva com violência. Eu acho que a gente tem grandes exemplos aí mundiais, né, de pessoas que foram extremamente sofridas e reagiram de uma maneira pacífica e viraram exemplo para o mundo, como é o caso do próprio Nelson Mandela, da África do Sul. Mas o que a gente vê, se você pega as postagens que ela fazia, a Elisa lá atrás, que eu acho que hoje ela está arrependida, já tem postagem dela pedindo desculpa, ela tem postagem dela que odeia branco, que tem que fechar as igrejas, que tem que ter aborto com 26 semanas. Então, ela era uma pessoa, talvez, não sei agora, mas extremamente radical nas ideias e extremista, e ela provocou um pouco isso".
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