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Jair Messias Bolsonaro: Um mito ou uma triste realidade?

Hugo Barreto/Metrópoles

Por Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Aos 70 anos, a vida de Jair Messias Bolsonaro daria um filme e tanto: militar da reserva, quase 30 anos como deputado, presidente do Brasil, tido como líder de parte da direita e extrema direita, hoje, um ex-presidente julgado, vigiado, preso e no meio de situações que parecem até mentira de tão estranhas na política. Essa queda parece mostrar não só o fim de um plano de poder, mas também a grande diferença entre o que ele dizia ser – defensor da ordem – e o que fazia, que sempre foi atacar as instituições do país.

Bolsonaro sempre demonstrou grande habilidade e sintonia com os anseios do “indivíduo descontente”. Sempre se aproveitou da indignação de parte do povo brasileiro como impulso para sua carreira, vendendo a imagem de alguém independente de partidos e alianças, mesmo tendo atuado por sete mandatos no Congresso. Sua influência política foi erguida com frases impactantes, a criação de oponentes fantasiosos e investidas contra a ordem democrática, tudo sob o manto de um discurso de “luta contra a corrupção”, embora suas ações nem sempre tenham corroborado com essa retórica.

A chegada de Bolsonaro à presidência da República em 2018 vai além de uma simples onda antipetista, como muitos sugeriram. Na verdade, foi o resultado de uma tática que acionou mágoas, usou as redes sociais como ferramenta política e se comunicou diretamente com grupos conservadores, principalmente militares e religiosos. Considerado Mito por certos apoiadores, o capitão, esportista e ex-presidente se apresentava como alguém humilde – ainda que essa imagem de ‘mito’ e essa ‘humildade’ raramente, ou nunca, refletiram a verdade.

O cenário atual demonstra uma versão muito diferente dos fatos narrados por Bolsonaro. Um caso ilustrativo é que, em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu prosseguimento ao processo que declarou o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível até 2030, por uma votação de 5 a 2. Essa inelegibilidade decorreu da análise da Corte Eleitoral sobre a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) 0600814-85, apresentada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) contra Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto, dupla que concorreu à presidência pelo Partido Liberal (PL) nas eleições de 2022.

Numa decisão judicial ocorrida em setembro de 2025, portanto, mais recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) proferiu uma sentença que condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de reclusão. A acusação recai sobre a liderança de uma trama golpista, atentado contra a democracia e promoção de violência, entre outras. Este julgamento – histórico e firme – pôs um ponto final na sensação de que Bolsonaro estaria imune, um sentimento que o acompanhou em sua trajetória política.

Salvo melhor juízo, aparentemente, foi o caso da tornozeleira eletrônica que realmente firmou o símbolo mais lamentável – e, simultaneamente, o mais elucidativo – da derrocada do “Mito”. O antigo presidente, vigiado devido ao perigo de evasão do Brasil, estragou o aparelho com um ferro de soldar, num ato no mínimo desajeitado, comum de alguém que perde a razão política e sucumbe ao pânico.

Quando indagado sobre o ocorrido, Bolsonaro apresentou diversas explicações, desde um “acesso de loucura causado por medicamentos” até “paranoias” e “alucinações”, chegando a alegar também “curiosidade”. Tal justificativa seria lamentável, se não revelasse a incapacidade de autocontrole que ele próprio sempre criticou nos outros. Em resumo, Bolsonaro, que se promovia como um “líder firme e metódico”, protagonizou um episódio que combina negligência, improviso e angústia, o que prejudica ainda mais a sua reputação como ex-líder do país.

Atribuir a Bolsonaro o título de “incompetente violador de tornozeleira eletrônica” neste momento pode parecer severo para alguns, mas para outros é uma descrição literal. O episódio, que foi amplamente documentado, revela um padrão que muitos analistas sempre destacaram: Bolsonaro nunca soube respeitar os limites institucionais. Sua trajetória foi caracterizada por confrontos, bravatas e violações da ordem democrática. Contudo, ao se deparar com o que aparenta ser seu primeiro grande desafio – o ‘braço da Justiça’ – Bolsonaro desmoronou de maneira quase caricata.

Para além disso, ao procurar danificar o dispositivo eletrônico que representa as limitações impostas pelo Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro acaba por expor a clara divergência que sempre existiu entre o que diz e o que faz. Isto é, aquele que se dizia defensor da ordem transformou-se no principal promotor da desordem que tanto criticava.

A prisão preventiva de Bolsonaro mudou o rumo da política nacional, e sua base eleitoral faz de tudo para manter o discurso de “perseguição”, apesar dos diversos episódios envolvendo Bolsonaro e que servem como lembretes constantes da falência de uma narrativa que se apresentava como moralizante. A direita e a extrema direita brasileira, que apoia Bolsonaro e há anos se mantém sob o magnetismo personalista do ex-presidente, agora se encontra desamparada, fragmentada e forçada a enfrentar a deterioração inevitável da imagem de seu principal ícone.

Por outro lado, instituições que sofreram ataques severos encontram apoio ao demonstrar que a lei – pelo menos neste caso – chegou ao auge da hierarquia política. Bolsonaro, que criou sua imagem como capitão, atleta, político irreverente, líder conservador e presidente que prometia restaurar a moral, ao tentar romper uma tornozeleira, derretendo-a, agora vê seu nome registrado nos livros de história. E não da maneira mais adequada.

Pode-se afirmar que o homem que clamou contra a corrupção se vê condenado por delitos contra a democracia. O homem que afirmava ser da ordem quebrou as regras que deveria defender. O líder que se proclamava forte cede, dia após dia, aos seus próprios fantasmas. E, ao final, fica a questão: Jair Messias Bolsonaro: Um mito ou uma triste realidade?

Para quem acompanha de perto a trajetória de certos políticos e/ou figuras públicas, independentemente de ideologia política, vai entender que a resposta se torna cada vez mais evidente.

Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Hely Beltrão

Hely Beltrão

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1 Comment

  1. Jackeline

    26/11/2025

    Muito bom. Fiquemos de olho: derrotamos Bolsonaro, mas não o Bolsonarismo.

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