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Crônica a Josafá Torres

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Por Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Naquela antiga cidade situada no Centro-Sul do Piauí, com ruas que preservam passos de séculos, onde o sino da Catedral parece dialogar com o vento quente que sopra no estado, há uma voz que muitos oeirenses reconhecem antes mesmo de ver o rosto: a voz de Josafá Torres Pais Landin, conhecido como Josafá Torres, radialista. Aos 54 anos e 36 de carreira, Torres é desses homens que se levantam antes do sol – não por dever, mas por paixão.

Enquanto a cidade abre lentamente suas portas, sejam elas de madeira ou mais modernas, e o aroma do café começa a invadir as cozinhas dos lares, Torres já se encontra no estúdio da Rádio Vale do Canindé 93.7 FM, preparando os microfones como se estivesse afinando um instrumento invisível. Fala sobre o clima, manda um cumprimento para a ‘dona Maria’ dos bairros Rosário (lugar de origem), Canela, Oeiras Novas, Rodagem de Picos, e, claro, para Oeiras e o mundo todo por meio das ondas da internet; anuncia a promoção do mercadinho, comenta a partida de futebol do fim de semana […], transforma sua voz em ponte – e, em cidade pequena, ser ponte é mais relevante do que ser avenida.

Além do rádio, nos últimos tempos, Josafá decidiu atravessar sua própria ponte, e entre conversas, um cafezinho, um aperitivo, um bom tira-gosto – seja na mesa do estúdio, em casa ou até mesmo em um bar -, Torres começou a rabiscar versos. Inicialmente, talvez tímido, como se pedisse permissão; posteriormente, com voo mais audacioso, como se desvendasse que a palavra também é capaz de dançar.

E foi desse modo – gradualmente, mas com a intenção de quem deseja conquistar novos territórios – que o radialista se tornou compositor, ou talvez sempre tenha sido e apenas aguardava o momento adequado para se assumir. Tranquilo e seguro do que estava fazendo, vieram – e continuam vindo – várias composições, das quais destaco o hino do clube de futebol local, Associação Atlética Oeirense, o Oeirense, da primeira divisão do futebol piauiense.

Quanto ao hino, afirma-se que, junto com Jeremias Santos, Torres compôs a letra em uma noite quente, após uma derrota amarga da equipe, ou seja, quando converteram frustração em poesia, suor em metáfora. A partir daí, quando a equipe entra em campo ao som da música, até aqueles que não entendem de futebol sentem o coração apertar, o estádio simples adquire ares de final de campeonato e a canção se transforma em bandeira.

Na sequência dos destaques, entre tantas composições, vieram letras no ritmo do forró; sim, o forró, porque ninguém é de ferro, especialmente o nordestino que traz a sanfona na alma. Na canção “QUEM TE AMA TÁ AQUI”, Josafá cria uma atmosfera que remete a músicas antigas, com um toque de festa junina e promessas de amor sussurradas; o refrão apresenta uma rima simples e uma verdade direta, permitindo que as pessoas cantem sem precisar decorar, como se já soubessem.

E não parou por aí: Torres se aventura pelo sertanejo, abordando estrada, saudade e coragem – três palavras que se encaixam perfeitamente na geografia emocional do Piauí. As letras dele são como uma conversa de calçada: diretas, sem criar luxo onde há luta, nem fantasia onde há fé.

E por falar em fé, entre uma canção dançante e outra, surgem composições gospel, dessas que se assemelham – ou são mesmo – orações musicadas. Em nossa humilde opinião, não se trata de sermões, mas de abraços, quando falam de esperança como se estivessem oferecendo um copo d’água fresca no calor de trinta ou quarenta graus que domina quase o ano inteiro naquela cidade, naquele estado da Federação.

Há quem afirme que, ao escutar no rádio as canções criadas por Josafá, já encontrou conforto para momentos desafiadores. É possível inferir que, seja atuando como compositor ou com passagem como repórter da TV Meio Norte na capital piauiense, ou mesmo esperando novas oportunidades, Josafá Torres permanece no estúdio, com o microfone em mãos e um caderno repleto de versos, que aumentam dia a dia.

Por fim, o ‘Nêgo do Rosário’, como também gosta de ser chamado, percebeu que sua voz não serve apenas para anunciar, mas também para eternizar; e em Oeiras, onde as histórias têm o poder de perdurar, ele vai construindo sua própria lenda por meio dos acordes. No fim das contas, talvez não haja surpresa, já que entre as atividades de um radialista estão ouvir histórias dos outros e compartilhar as suas próprias.

Para Josafá, era só questão de tempo: começar a contar as próprias histórias – compondo. E há vozes que não atravessam o tempo – constroem-no.

FSA-BA, 20/02/2026 – Dia Mundial da Justiça Social

Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias

Hely Beltrão

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