A liberdade de não esperar aplausos
Por Emanuelle Pilger, Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Aprendi, com o tempo, que existem palavras que nascem em outros idiomas, mas ganham morada definitiva na nossa rotina emocional. Haters é uma delas. Importada do inglês, a tradução é simples e dura: odiadores. Gente que, por razões que nem sempre entendemos, prefere gastar energia torcendo contra.
Na mesma prateleira da comunicação digital estão os lovers, aqueles que aplaudem, incentivam, celebram. E foi pensando nessa convivência entre amor e rejeição que me peguei refletindo sobre o quanto a necessidade de reconhecimento atravessa a vida das pessoas e, muitas vezes, as machuca.
Essa semana, uma amiga me confidenciou sua dificuldade em aceitar uma verdade incômoda: nem todo mundo que caminha ao nosso lado está torcendo por nós. No trabalho, temos colegas não necessariamente amigos. Na família, às vezes, convivemos com laços que não sabem amar como deveriam. E isso dói, porque esperamos do outro aquilo que faz sentido para nós.
Em algum momento da vida, precisei aprender não sem resistência que o mundo não se molda para caber nos nossos afetos. Ouvi isso na terapia, como quem recebe um aviso necessário: o mundo não vira uma bolha para nos proteger. Cabe a nós aprender a ler as pessoas, separar o joio do trigo e criar estratégias emocionais para conviver sem adoecer.
Foi esse aprendizado que compartilhei com minha amiga. Falei também de um livro que me atravessou profundamente: O Ego é o Seu Maior Inimigo, de Ryan Holiday. Porque existe algo muito humano, quase inevitável, em querer ser visto. Queremos que percebam nosso crescimento, nosso esforço, nosso corpo mudando, nossa disciplina diária, nosso trabalho bem feito.
E é legítimo ficar triste quando esse reconhecimento não chega.
Mas foi libertador descobrir que a maturidade começa quando a gente para de esperar aplausos. Quando entendemos que nem toda plateia é sincera e que nem todo elogio nasce da admiração. Às vezes, o silêncio do outro diz mais sobre ele do que sobre nós.
Construir autoestima é um exercício silencioso. Autoafirmação não faz barulho. Convicção pessoal não depende de curtidas. Estar bem consigo mesmo é uma tarefa diária e profundamente revolucionária num mundo que nos ensina a buscar validação o tempo inteiro.
Hoje, sigo com a certeza de que valores morais e éticos sustentam muito mais do que aprovação alheia. O que me move é saber quem eu sou, o que faço e por que faço. O resto é ruído.
E assim sigo: sem esperar aplausos, sem contar plateias, mas com a tranquilidade de quem aprendeu que a própria consciência é o palco mais honesto que existe.
Super Sincera volta na próxima semana.
Com mais um atravessamento que é meu — e, quem sabe, também seja seu.




