Feira de Santana

Trânsito violento gera custos milionários e mobiliza forças de segurança em Feira de Santana

Com informações: Luiz Santos e Onildo Rodrigues

Por: Mayara Nailanne

A violência no trânsito continua sendo um dos maiores desafios enfrentados por Feira de Santana e por todo o país. O tema foi debatido durante uma coletiva de imprensa realizada no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), na manhã desta terça-feira (27), reunindo representantes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Rodoviária Federal (PRF), da Superintendência Municipal de Trânsito (SMT) e da área da saúde, que alertaram para os impactos humanos, estruturais e financeiros causados pelos acidentes.

O comandante do Corpo de Bombeiros, Adriano Bertolino, destacou que a atuação da corporação ocorre de forma integrada com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU, a Polícia Rodroviária Federal – PRF, a Polícia Militar e equipes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT, especialmente nos casos mais graves. Segundo ele, quando há vítimas presas às ferragens ou grande número de feridos, o Corpo de Bombeiros é acionado para realizar o desencarceramento, utilizando equipamentos específicos para cortar a estrutura metálica dos veículos e permitir o acesso às vítimas.

Apesar da atuação emergencial, o comandante ressaltou que o trabalho preventivo tem sido uma prioridade, com campanhas educativas e palestras em escolas. Para ele, a educação para o trânsito é fundamental, já que as crianças e jovens de hoje serão os motoristas e motociclistas de amanhã.

Dados apresentados pelo Corpo de Bombeiros apontam que, no ano passado, 69 vítimas de acidentes de trânsito foram atendidas pela corporação, sendo a maioria das ocorrências registrada no Anel de Contorno. Bertolino explicou que o elevado fluxo de caminhões na via contribui diretamente para o alto número de acidentes, sobretudo envolvendo motociclistas, já que veículos de grande porte possuem diversos pontos cegos que dificultam a visualização.

A diretora do Hospital Geral Clériston Andrade, Cristiana França, ressaltou que o impacto dos acidentes de trânsito é sentido diariamente na unidade. Segundo ela, cerca de 80% dos pacientes politraumatizados atendidos no hospital são vítimas de acidentes nas vias urbanas e rodovias. Somente em 2025, o hospital registrou 3.339 atendimentos desse tipo, número que representa um aumento de quase 7% em relação ao ano anterior.

Ela explicou que, embora a maioria dos pacientes seja de Feira de Santana, o hospital também recebe vítimas de diversos municípios da região. Um dado que chama atenção é o perfil dos pacientes vindos do interior, especialmente de distritos rurais, que chegam com traumas cranianos graves, muitas vezes por não utilizarem capacete. Para a diretora, o uso de equipamentos de proteção individual é decisivo para reduzir a gravidade das lesões.

Além do impacto humano, Cristiana França destacou o alto custo financeiro desses atendimentos para o Sistema Único de Saúde. Um paciente politraumatizado internado em UTI custa, em média, quase cinco mil reais por dia. Nas enfermarias, os custos variam de cerca de mil reais na ortopedia a dois mil reais por dia na neurocirurgia. Segundo ela, esses recursos poderiam ser investidos em outras áreas da saúde, como o cuidado com a população idosa, que cresce a cada ano.

A inspetora da Polícia Rodoviária Federal, Lívia Marcelino, destacou que o enfrentamento à violência no trânsito exige um esforço coletivo. Segundo ela, a presença conjunta de Corpo de Bombeiros, PRF, Polícia Militar, SMT e representantes da indústria demonstra que o problema não pode ser tratado de forma isolada.

Lívia chamou atenção para o impacto financeiro dos acidentes em nível nacional. De acordo com dados apresentados, o Brasil gasta cerca de 449 milhões de reais por ano com acidentes de trânsito. Para a inspetora, se esse valor fosse direcionado exclusivamente para a saúde, seria possível adquirir milhares de ambulâncias, mas essa conta cresce a cada ano.

Ela também ressaltou que o aumento da frota de motocicletas tem contribuído para o crescimento dos sinistros e que o Anel de Contorno representa uma realidade complexa, com diversos fatores que agravam os acidentes. Entre eles estão as más condições da pista, buracos, falhas na sinalização e iluminação insuficiente, fatores que se somam à imprudência dos condutores.

Segundo a inspetora, para que o trânsito seja mais seguro, não basta apenas responsabilidade individual e fiscalização. É necessário também investimento em engenharia viária. Ela afirmou que o Anel de Contorno ainda está distante de uma condição ideal, mas há expectativa de que, com a duplicação da via, esses problemas estruturais sejam revistos.

Sobre pontos críticos, como o trecho da Avenida Centenário onde motoristas e pedestres realizam travessias irregulares pelo canteiro central, Lívia explicou que a PRF atua por meio de fiscalização e diálogo com o DNIT e o município.

Questionada sobre os principais fatores que contribuem para mortes no trânsito, a inspetora destacou que tanto a alcoolemia quanto o excesso de velocidade têm peso significativo. Segundo ela, o consumo de álcool agrava e, muitas vezes, provoca os sinistros, enquanto a velocidade excessiva está diretamente ligada a colisões frontais e saídas de pista, geralmente associadas a acidentes de maior gravidade.

O superintendente da Superintendência Municipal de Trânsito de Feira de Santana, Ricardo da Cunha, destacou que os dados apresentados refletem uma realidade conhecida em todo o país. Segundo ele, desde 2019 o Brasil registra aumento significativo nos sinistros de trânsito, mas Feira de Santana, apesar dos desafios, não acompanha essa mesma curva de crescimento.

De acordo com Ricardo, o município tem conseguido reduzir proporcionalmente o número de sinistros em comparação ao cenário nacional e não registrou aumento significativo em relação a 2005. Mesmo assim, a SMT tem tratado a redução de acidentes, especialmente os que resultam em mortes, como prioridade absoluta, planejando e executando diversas ações ao longo de 2025.

Entre as medidas adotadas estão a intensificação da Lei Seca, a melhoria nos projetos de educação para o trânsito, principalmente nas escolas, e o fortalecimento da fiscalização em toda a cidade. O superintendente ressaltou que a Secretaria Municipal de Educação também tem participado ativamente dessas ações, reforçando a importância do trabalho conjunto.

Ricardo alertou que, se as estatísticas nacionais continuarem no ritmo atual, em 2030 o trânsito poderá se tornar a principal causa de mortes no Brasil, superando outros fatores. Para ele, esse é um cenário que não pode ser aceito, e a expectativa é que, com as ações em andamento, Feira de Santana consiga comemorar, já em 2027, uma redução significativa no número de sinistros e mortes no trânsito.

Ele explicou ainda que a fiscalização não tem como objetivo principal a punição pura e simples, mas sim a prevenção. Segundo Ricardo, a presença do agente de trânsito inibe a infração e reduz o risco de acidentes. Para ele, educar e fiscalizar caminham juntos, mas o maior desafio da superintendência continua sendo a educação, especialmente a mudança de comportamento dos condutores.

O superintendente também avaliou que dificuldades estruturais herdadas de gestões anteriores, como problemas de aparelhamento da SMT, já foram superadas. Segundo ele, 2025 foi um ano fundamental para estruturar o órgão, e hoje a superintendência já possui condições de avançar ainda mais. Ricardo anunciou ainda a realização de um congresso nacional de trânsito, previsto para o mês de maio, que reunirá especialistas de todo o país, com o objetivo de tornar Feira de Santana uma referência em trânsito em todo o Nordeste.

Mayara Nayllanne

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