A caminhada política de Nikolas Ferreira e a aposta permanente na polarização
Por Professor Carlos Alberto
Desde sua ascensão meteórica no cenário político nacional, o deputado federal mineiro Nikolas Ferreira (PL) tem construído uma trajetória marcada menos pela elaboração de políticas públicas concretas e mais pela exploração contínua da polarização ideológica. Apresentado como um fenômeno das redes sociais antes mesmo de se consolidar como parlamentar, o deputado fez da provocação, do confronto simbólico e da performance política o eixo central de sua atuação.
Essa lógica se tornou mais uma vez clara na recente caminhada de Nikolas até Brasília – DF, descrita como um ato de “convicção”, “resistência” e “fidelidade a valores”. Apesar de envolta em simbolismo épico, a iniciativa destaca uma prática comum em sua trajetória: ações de grande impacto midiático, amplamente divulgadas nas redes sociais, mas com pouco conteúdo programático ou propostas concretas para os problemas reais do Brasil. A caminhada, assim como seus discursos mais famosos, aparenta estar menos focada no diálogo democrático e mais na mobilização emocional de seus apoiadores.
Ferreira, eleito com um discurso de renovação e defesa de valores conservadores, tem se destacado por suas falas contundentes, principalmente em relação a questões morais e identitárias. Em vez de focar em questões estruturais como desigualdade social, saúde pública, educação básica ou desenvolvimento econômico, sua atuação se concentra principalmente em guerras culturais que geram engajamento digital, mas que têm pouco – ou nenhum – impacto em soluções práticas. A marcha até Brasília, reitero, faz parte desse mesmo enredo: uma ação simbólica que gera bastante repercussão nas redes, mas oferece pouco em termos de proposta de país, algo que não é seu ponto forte.
A lógica da caminhada política do deputado em questão, tanto no sentido literal quanto figurado, parece seguir um roteiro claro: transformar o Parlamento – e agora também as estradas – em extensão das plataformas digitais. A simplificação de temas complexos, o uso recorrente de retórica inflamada e a construção constante de inimigos – sejam movimentos sociais, minorias ou instituições democráticas – funcionam como combustível para sua base, mas empobrecem o debate público. O resultado tem sido um mandato mais voltado à visibilidade do que à responsabilidade institucional.
A maneira como Nikolas Ferreira ‘estica’ os limites do discurso democrático é outro aspecto crucial. Ao manifestar-se de forma recorrente contra políticas de inclusão e direitos civis, seu discurso muitas vezes beira – ou mesmo se concretiza – a intolerância, legitimando ataques simbólicos a grupos historicamente marginalizados. Mesmo quando envolvidas em gestos pacíficos ou histórias de fé e sacrifício, como na caminhada a Brasília, essas ações não neutralizam o efeito real de discursos que intensificam divisões e comprometem a convivência democrática.
A trajetória do deputado também mostra uma dependência quase total do capital político de Bolsonaro, preferindo permanecer como um eco de uma liderança já desgastada, em vez de desenvolver uma identidade própria e propositiva. Na Papudinha, essa liderança cumpre pena por atos antidemocráticos, enquanto Nikolas acredita que a radicalização constante – agora também representada em atos performáticos – é suficiente para assegurar sua relevância nas eleições. Tal decisão restringe sua habilidade de diálogo e o distancia do papel esperado de um legislador engajado com a diversidade da sociedade brasileira.
Em suma, a trajetória política de Nikolas Ferreira – seja nas redes sociais, no Parlamento e também nas estradas – demonstra um projeto que prioriza a manutenção do engajamento e da visibilidade em vez de se concentrar no futuro melhor para o país. É uma forma de fazer política que provoca mais do que propõe, grita mais do que constrói e divide mais do que governa. No momento em que o Brasil necessita de maturidade institucional e soluções efetivas, a atuação do deputado simboliza não só uma opção ideológica, mas, em especial, um empobrecimento da prática democrática.

Por Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias




